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quarta-feira, 2 de maio de 2012

FÚTBOL DE BOTONES



         O último texto que escrevi foi em julho, sobre o Mundial da África do Sul...  Levei muito tempo para voltar a escrever.  E a razão pela qual retorno é porque, finalmente, pude reconciliar-me com o futebol, graças  a uma recordação que o purifica de todo o vexame que o tenha envergonhado na Copa.
Um dia, quando juntamente com meu irmão, éramos jovens, meu pai apareceu com uma velha caixa de lata cheia de botões muito estranhos.  Não havia dois botões iguais, todos tinham as bordas limadas e lixadas, com diferentes angulações, e cada um levava gravado com tinta nankim o nome de algum jogador dos anos cinquenta, principalmente argentinos.  Bem, havia um um pequeno botão que não tinha nada escrito, nem estava lixado, além de ser muito menor do que os outros.  Era um botãozinho de camisa.  A pelota ou bola do jogo. 
         Nunca descobri jogo mais incrível.  Em segundos, a mesa de refeições, retangular e de madeira, se transformava em um perfeito campo de futebol.  Com cinta adesiva se traçavam as "linhas de cal", demarcatórias do campo de jogo, as áreas e círculo central na linha divisória.  As goleiras eram montadas com lápis brancos, cortados convenientemente, na altura das traves, e unidos com cola.  As redes,malhas finas.  Onze botões de um lado, onze do outro.  E um pequeno pedaço de régua era a palheta, o instrumento para impulsionar os jogadores, fazendo pressão sobre suas "cabeças" (partes superiores), e assim poder golpear arremessando a bola. 
         Com meu irmão, tratamos de dividir os apreciados botões-jogadores de meu velho, e na continuação, viemos a nos encantar muito com esses botões que, sinceramente, não mais os víamos como tais.
Os botões mais altos eram naturalmente bons defensores.  Por outro lado, os mais baixos tinham boas condições e melhores aptidões para "correr" rápido pelas bandas laterais ( eram os que melhor deslizavam sobre a madeira da mesa, além de ter a capacidade de "levantar" a pelota quando dos arremessos ao gol adversário ).  Por último, os arqueiros, altos, pesados  e largos, não podiam ser outros que os botões retirados de algum velho sobretudo.
          Não passou muito tempo até que praticamente todos os jovens do bairro se incorporaram nesta nova paixão coletiva.  Inclusive, até um amigo de meu pai apareceu um belo dia com uma equipe completa de botões, com nomes dos jogadores e tudo o mais, para participar dos torneios que semanalmente, tinham lugar na mesa da sala; quando não era usada para atividades menos transcendentais como fazer as refeições.
          Com meu irmão e meu velho pai, nós passávamos tardes inteiras sentados na varanda  de cimento áspero da nossa casa, limando e lixando os velhos botões, com paciência de cirurgião, buscando melhorar suas habilidades, ante os olhares estranhos e curiosos de nossos vizinhos.
Inclusive, em algumas oportunidades, também fomos à Loja de Botões do bairro, com a esperança de converte-la num recanto de "novas estrelas no mundo dos botões", porém, não foi o caso...  Botões ?   Botões eram os de antes...

TRANSCRITO DO BLOG DE JAVIER BELTRAMINO, ARTICULISTA ARGENTINO.
TRADUÇÃO AUTORIZADA DE  ENIO SEIBERT

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