Sensacional eu diria, pois não encontro outro termo. Já a alguns anos venho lutando comigo mesmo, uma luta íntima de: ser ou não ser, ou melhor, estar ou não estar certo.
Neste mundo onde cada ser é completamente diferente um do outro, onde cada um luta em manter suas opiniões e paixões, sem abrir mão de suas vontades e caprichos por orgulho ou por se achar o dono imperioso da verdade, sem ouvir ou considerar a opinião do próximo, nem mesmo por curiosidade da experiência é que, por muito tempo mantive, no Futebol de Mesa, meus pensamentos e idéias trancadas na caixinha junto com os meus inseparáveis times de botões de coco.
Agora que, por acidente e ajuda do alto, descobri essa janela para o mundo que se chama BLOG, mesmo que ninguém olhe para dentro da minha janela http://nytablesoccer.blogspot.com, eu continuarei escrevendo, expondo para quem quiser julgar, minhas experiências neste mundo plano, de madeira e pintado de verde onde rola uma bolinha cabeluda, vinte e dois jogadores e dois técnicos com as mais variadas ações, reações e emoções.
Já escrevi em uma de minhas loucuras, chamadas colunas, um trecho em – Jogando Botões III – onde dei vazão ao meu incômodo de ver possíveis e interessados candidatos a técnicos de futebol de botões, guardarem humilhados suas caixinhas no fundo de uma gaveta esquecida. Se você é pai e vai jogar bola com o filho que têm as pernas menores do que a bola, você não lhe dá um drible que o faz cair sentado, não lhe chuta a bola em cima para não machucá-lo, você sim, deixa que ele sinta o gosto de chutar, você finge deixar a bola passar por entre suas pernas e feliz, grita: Goooool do Júnior…
Então, você que já passou por tantas emoções, porque não, então, “ajeitar” seu jeito de jogar e ver seu amigo “babar” de felicidade, desenvolver sua habilidade, de se apaixonar pelo esporte e, crescendo, se tornar um técnico com experiência para que você possa enfrentá-lo de igual para igual e ai sim, você também poderá “babar” e gritar em sua vitória, vitória sobre alguém que também sabe jogar.
Se me permitem, gostaria de enfatizar este pensamento lembrando como me iniciei ou melhor, como me iniciaram na difícil arte do jogo de xadrez. Um saudoso amigo, amigo de meu também saudoso pai, me convidou um dia para jogar xadrez em sua residência, eu que já tinha assistido a algumas partidas, achava interessante, conhecia as regras básicas mas não tinha nenhuma prática. O amigo de meu melhor amigo, que mais tarde viria prefaciar meu primeiro livro, explicou-me algumas táticas e começamos a jogar. Ele, além de muito inteligente, tinha experiência em pequenos torneios de fim de semana, além de estudar e praticar jogadas sozinho.
Sentados frente à frente e na maior concentração, ele jogava enquanto eu mexia as peças, ele dizia: observe e aprenda e chegávamos ao fim, muita das vezes empatados e por vezes ele derrubava o rei dizendo que em algumas jogadas à frente ele não teria como conseguir o xeque-mate – muito mais tarde descobri a “mentira” incentivadora -. Muito jovem ainda e acreditando que jogava xadrez e ao invés de observar mais, estudar e treinar me arrisquei em um torneio e fui eliminado no terceiro movimento do primeiro jogo.
Em resumo e voltando ao nosso tabuleiro verde onde as peças são os nossos botões, eu coloco a pergunta se eu teria continuado amante do xadrez se o meu amigo, experiente que era, logo de início tivesse me arrasado com inúmeros xeque-mates seguidos, fazendo me crer que eu nunca conseguiria ganhar dele ou de ninguém.
Dentro desta filosofia de que devemos ser cuidadosos e pacientes com àqueles com menor experiência incentivando-os e permitindo que eles também joguem, eu tive um prazer ímpar quando na em uma quarta-feira congelante (19/12/07) à noite em nosso clubinho foram realizados três jogos amistosos sem nenhuma pretensão de conquista e eu, que havia premeditadamente, reduzido o tamanho do meu goleiro, torcia para que acreditassem e levassem na brincadeira a estória que eu criara sobre o goleiro frangueiro do meu Botafogo.
É claro que perceberam mas esta coluna visa lavar a minha alma pois o objetivo foi alcançado, fizeram gols, ganharam, vibraram, brincaram, relaxaram e um deles, desaparecido do campo por muitos meses, comentou com o sotaque mineiro: é muito bom, é muito divertido… e eu acredito que posso afirmar: acho que com mais alguns truques e esse vai se apaixonar.
Se eu manchei o esporte, aqueles que espantam possíveis técnicos do Futebol de Mesa, que atirem as pedras.
CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR BRASILEIRO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. BOTONISTA SAUDOSO DA PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS HORAS DE LAZER.