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segunda-feira, 16 de abril de 2012

A cera lá de casa




Cinqüenta anos ou meio século é muito tempo… Nossa rua, lá nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro era de paralelepípedos e inclinada, pois morávamos em um morro lá pelas bandas do Cachambi, onde era comum as meias laranjas. O pequeno terreno de terra batida entre duas outras ruas ladeiradas era nosso campinho, inclinado no comprimento e na largura. Mesmo assim, peladas e torneios eram disputados com muito calor, paixão e muita, mas muita categoria – na época, diríamos: com classe.  O domínio da bola, o drible fácil  imitando Garrincha, Didi, Domingos da Guia, Nilton Santos e outros grandes, aqueles times dos com e sem camisa, dariam hoje um show para quem está acostumado a ver somente muita violência.

A mesma arte que esbanjávamos com os pés descalços e bolas de meia dedicávamos aos botões.  Lembro bem dos longos papos debaixo das árvores, sentado no meio fio e, ao mesmo tempo, a mão não parava, lixando e lixando no cimento da calçada as fichas de ônibus, pedaços de galatite e casca de coco. O acabamento impecável era conseguido com flanela e a cera "roubada" lá de casa, acho que era a Parquetina, aquela que tinha como desenho um garoto com cara de boboca deslizando num piso encerado. Eu me lembro também a da UFE - União Fabril Exportadora, a do sabão Portugues, na Av. Brasil... imagine, quebrou!

As partidas amistosas eram feitas nas mesas das cozinhas, no chão de taco ou no piso de cimento vermelhão… E os torneios? Ah!… Os torneios, estes sim, eram disputados em uma mesa com linhas e tudo… O Sr. Luis Alfaiate, pai do João, é quem patrocinava o prêmio, uma garrafa litro de Coca-Cola, mas às vezes até medalha tinha.

Quando penso naquela mesa imensa, fico em dúvida se ela realmente era muito grande ou eu era muito pequeno. Lembro dos colegas, os vizinhos Lelis, o Estevão, o Juarez, os irmãos W, Wilton, Wilson e William e alguns outros também com times de fantástica qualidade artesanal. Nenhum botão era igual ao outro: diâmetros, alturas e materiais diferentes, todos tinham nomes de nossos ídolos e mesmo que vendidos ou trocados o nome permanecia…Belini, Vavá, Puskas, Quarentinha e tantos outros que me falha a memória.

Hoje vejo nos muitos sites brasileiros as mesas, as balizas, os goleiros, os botões e as bolinhas!!! Incrível como evoluíram. Vejo extasiado, nas fotos dos sites, times brilhantes dispostos em mesas impecáveis, que merecem ser fotografados, mas eu, aqui nos Estados Unidos, continuo com meu time de casca de coco da Bahia, não tão perfeito como aquele lixado na calçada, não obstante terem sido cortados e polidos com todos os recursos que o Primeiro Mundo oferece.  Mas acredito que falta a flanela peluda e aquela cera lá de casa.

Um grande abraço Botafoguense a todos os que tiveram a paciência de ler as minhas lembranças.

Paulo H Bosco

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