Cinqüenta anos ou meio século é muito tempo… Nossa rua, lá nos subúrbios
da cidade do Rio de Janeiro era de paralelepípedos e inclinada, pois morávamos
em um morro lá pelas bandas do Cachambi, onde era comum as meias laranjas. O
pequeno terreno de terra batida entre duas outras ruas ladeiradas era nosso
campinho, inclinado no comprimento e na largura. Mesmo assim, peladas e
torneios eram disputados com muito calor, paixão e muita, mas muita categoria –
na época, diríamos: com classe. O domínio
da bola, o drible fácil imitando
Garrincha, Didi, Domingos da Guia, Nilton Santos e outros grandes, aqueles
times dos com e sem camisa, dariam hoje um show para quem está acostumado a ver
somente muita violência.
A mesma arte que esbanjávamos com os pés descalços e bolas de meia
dedicávamos aos botões. Lembro bem dos
longos papos debaixo das árvores, sentado no meio fio e, ao mesmo tempo, a mão
não parava, lixando e lixando no cimento da calçada as fichas de ônibus,
pedaços de galatite e casca de coco. O acabamento impecável era conseguido com
flanela e a cera "roubada" lá de casa, acho que era a Parquetina,
aquela que tinha como desenho um garoto com cara de boboca deslizando num piso
encerado. Eu me lembro também a da UFE - União Fabril Exportadora, a do sabão
Portugues, na Av. Brasil... imagine, quebrou!
As partidas amistosas eram feitas nas mesas das cozinhas, no chão de
taco ou no piso de cimento vermelhão… E os torneios? Ah!… Os torneios,
estes sim, eram disputados em uma mesa com linhas e tudo… O Sr. Luis Alfaiate,
pai do João, é quem patrocinava o prêmio, uma garrafa litro de Coca-Cola, mas
às vezes até medalha tinha.
Quando penso naquela mesa imensa, fico em dúvida se ela realmente era
muito grande ou eu era muito pequeno. Lembro dos colegas, os vizinhos Lelis, o
Estevão, o Juarez, os irmãos W, Wilton, Wilson e William e alguns outros também
com times de fantástica qualidade artesanal. Nenhum botão era igual ao
outro: diâmetros, alturas e materiais diferentes, todos tinham nomes de nossos
ídolos e mesmo que vendidos ou trocados o nome permanecia…Belini, Vavá, Puskas,
Quarentinha e tantos outros que me falha a memória.
Hoje vejo nos muitos sites brasileiros as mesas, as balizas, os
goleiros, os botões e as bolinhas!!! Incrível como evoluíram. Vejo
extasiado, nas fotos dos sites, times brilhantes dispostos em mesas
impecáveis, que merecem ser fotografados, mas eu, aqui nos Estados Unidos,
continuo com meu time de casca de coco da Bahia, não tão perfeito como aquele
lixado na calçada, não obstante terem sido cortados e polidos com todos os
recursos que o Primeiro Mundo oferece.
Mas acredito que falta a flanela peluda e aquela cera lá de casa.
Um grande abraço Botafoguense a todos os que tiveram a paciência de
ler as minhas lembranças.
Paulo H Bosco
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