Jogando Botões II
Foi em uma quarta feira à noite, no estádio Mario Filho (Maracanã) que aconteceu o número mil. Parece que quando se chega perto de algo muito esperado, que marcará nossa vida, a conquista de um objetivo, o tempo se alonga, pedras aparecem no caminho e nossa paciência, perseverança e habilidade com o projeto de vida se tornam mais difíceis de administrar.Quando o nosso Pelé, Edson Arantes para os intimos, se aproximou da marca que o consagraria para sempre na história do futebol, as coisas ficaram difíceis, ele que, rotineiramente, fazia gols em quase todas as partidas, teve dificuldades após os 999. Nenhum goleiro queria ser a vitima e apesar de todos os companheiros de equipe lhe passar todas as bolas, o 1000 não acontecia.
Naquela noite de Vasco x Santos, com poucos vascaínos, poucos santistas mas 68000 torcedores do Negão – como dizia o saudoso locutor Jorge Curi – lá estava eu, botafoguense e com muitos gols a lembrar contra o meu time, mas arte é arte, não machuca.
Naquela altura já não importava o jogo, o resultado, importava o gol do alívio para ele e para nós, fans do melhor jogador de todos os tempos, do profissional sério e homem de bem. Quiz Deus presentear a todos nós, que a festa fosse no Maracanã (estádio que o Pelé dizia mais gostar), e, principalmente, a providencia reservou o goleiro argentino Andrada do Vasco e mais, que fosse um penalti para que não houvesse demérito para o goleiro.
Aquele momento mágico, foi incrível mas o que mais ficou gravado em minha memória, foi o gesto magnanimo do goleiro vascaino, que com a bola em suas redes, correu para abraçar o gênio, gesto próprio de um desportista puro.
Ha tempos que os que jogam comigo não desprezam mais o preciso posicionamento do goleiro quando chego pelas laterais. Uns dizem: “…com ele não dá pra brincar”… outros, “…com ele voce tem de marcar os pontas” … e certa vez um disse: …”se ele marcar este eu tiro as calças”. Hoje ele não repetiria a frase.
Assim, já não me importavam os resultados das partidas, ganhando ou perdendo o que me trazia alegria de relembrar eram os gols de curva, aqueles com ângulo invisível e as jogadas longas rente às laterais do campo. Mas o momento sonhado, o momento supremo, tão esperado, pensado e treinado não pode ser programado e acontece sem aviso.
Semana passada, eu jogava uma partida classificatória contra o América Mineiro do amigo Carlos, pelo Torneio da Amizade que em verdade é o Torneio Início que aquece as turbinas da turma para o longo campeonato anual de dez semanas. Meus pupilos jogavam bem, tinhamos um placar favoravel de 3x1 e apenas tocávamos a bola aguardando o apito do cronometro.
Meu adversário -em campo-, dá uma furada na lateral direita (dele), eu, todo lá atrás, tranquilo, fiz o que gosto, buscar em profundidade as bolas perdidas. Meu ponta esquerda, que também joga recuado, chegou na bola com um leve toque mas passou do ponto. Sem opção de passe e com o risco de perder a bola no segundo toque, pensei: “…quem sabe, acertando bem a tangente, com força, ainda posso conseguir um corner atingindo um botão do América…”
Por força do habito, pedi para ajeitar, deitei a palheta, através das já fracas lentes de meus oculos, via apenas a meia banda direita da bola, forcei o máximo o meu “Esquerdinha” e aconteceu.
Meus olhos não acreditaram, havia uma testemunha, um americano que exclamou surpreso: “Oh My! … this guy is Michael Jordan … this guy play like Tiger Woods” e foi chamar os outros mostrando em outra mesa o que tinha visto.
Mas o que senti, “em verdade eu vos digo”, foi a imensa alegria pelo imediato abraço e elogios do meu oponente. Por alguns segundos pude sentir o que o Pelé deve ter sentido e pelo resto da minha vida, vou lembrar e relembrar o gol em que meu jogador passou do ponto.
CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR BRASILEIRO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. BOTONISTA SAUDOSO DA PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS HORAS DE LAZER.
TEXTOS REPRODUZIDOS PARA O SITE INTERNACIONAL “FUTMESABRASIL.COM “ POR ENIO SEIBERT - E-mail: enioseibert@hotmail.com


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