Um Domingo de Paixão
Cinco e meia, sexta feira, a chuva caia fininha naquela tarde noite de inverno na cidade do Rio de Janeiro. Paulinho quase em casa após sair do colégio e caminhar por meia hora foi surpreendido com a turminha da rua reunida na esquina. Parou, perguntou: “e aí bicho” naquele tempo todo mundo era bicho porque era assim que o Roberto Carlos gostava e se ele gostava, nós também.
- Domingo vai haver um torneio na casa do Riquinho – Ricardo era o menino rico lá do bairro, casa grande e bonita, pelo menos em comparação com nós outros – legal … posso ir? Perguntou! “sai dessa bicho, vai ser torneio pra cobra, criança não participa”. Paulinho tinha mais ou menos a mesma idade dos outros mas como era muito magro e pequeno, não tinha vez. Às vezes, tinha vaga nas peladas … “fica na ponta esquerda e não deixa a bola sair” gritavam os grandões.
Foi pra casa e depois do jantar jogou uma partida com seus dois times, o profissional e o amador – naquele tempo, televisão era coisa de rico – os amadores, ganharam como sempre, apesar dos empurrãozinhos que Paulinho sempre dava aos seus preferidos, os profissionais. Ficou pelejando até tarde chutes a gol, das posições mais difíceis, até de corner experimentava, dai veio o cansaço e foi dormir sonhando um dia poder jogar um torneio com os cobras.
O sábado amanheceu bonito, lá na calçada da AVE (associação dos vagabundos da esquina) haviam alguns papeando sobre o torneio que ia ter uma medalha para o campeão, mais um “time de fábrica” e coca-cola e biscoito à vontade, tudo por conta do pai do Riquinho. Paulinho se chegou e se ofereceu como “sparring” para os cobras irem se preparando. Mas havia uma preocupação no ar, os pais de alguns garotos não autorizaram a participação porque alguns tinham de estudar para a prova de meio de ano, matemática, na segunda-feira.
Riquinho chegou e foi logo dizendo que estava tudo pronto e que o pai ficaria uma fera se tivessem que transferir o torneio. O jeito era chamar os garotos da reserva das peladas para completar a tabela. E foi então, dessa maneira, que Paulinho teve sua primeira oportunidade para jogar entre os cobras.
Na tarde de sábado, após completar os deveres de casa e lavar as escadas – parte de sua lista de tarefas – começou a polir os botões, estava na dúvida qual time deveria escalar, os profissionais eram o primeiro time e os amadores os reservas, mas a verdade é que os amadores sempre ganhavam nos jogos treino. Que fazer? Afinal! O que importava, não passaria mesmo da fase de classificação.
O melhor seria ir ao Maracanã e tirar o torneio da cabeça, o seu Botafogo iria jogar com o Vasco naquele sábado à noite e ele tinha guardado parte da mesada para um jogo como aquele. Iria cedo para não perder a preliminar pois gostava de assistir o time amador, que eram chamados “aspirantes”, ou seja, aspirantes a profissionais, não tinham a mesma classe dos profissionais, mas tinham o coração nos pés, suavam a gloriosa camisa da estrela solitária.
Paulinho chegou cedo, foi para arquibancada no meio daquela algazarra da torcida organizada e gritava o quanto podia, FOGO! FOGO! …é SELEFOGO … no bolso, carregava o time que fizera com as fichas de jogo que sua tia trouxera da Alemanha e jogara fora, ele não gostava da cor, vermelha, mas era o melhor que possuía. Sonhava ter um time de fábrica … “Aah! Quem sabe um dia”, estava juntando parte da mesada, fora várias vezes à fabrica em Quintino com os amiguinhos da rua, os que podiam compravam, outros enganavam o “Seu Manéu” e surrupiavam um ou outro botão da caixa. Ele, Paulinho, nunca faria isso, “Seu Manéu” era um portuga legal e as vezes até dava um botão que tinha um pequeno defeito, ele, Paulinho, nunca tivera esta sorte.
O jogo era todo Vasco, mas no final o 1x0 premiou a garra do time aspirante do Botafogo. Intervalo para o jogo principal, hora do cachorro quente e o mate gelado, Paulinho evitava pensar no torneio do dia seguinte, vibrava com aqueles cobrões de seu time e quando o Quarentinha fez mais um gol se distanciando na artilharia, apertou seus botões no bolso desejando poder batizar o time com o nome do seu Botafogo, mas não tinha coragem, seu time de botões não era bonito como os times de fábrica, ele também não queria fazer vergonha com o nome do Botafogo, além disso, vermelho? Vermelho era cor do América, todos gostavam do América, ele também, mas tinha escolhido outro nome de batismo.
Final de jogo, o Botafogo perdeu mais uma vez para o Vasco, Paulinho saiu devagar do Maracanã, estava triste, a chuva murrinha continuava, meteu a mão no bolso para conferir os trocados e surpreso viu que exagerou no cachorro quente, não dava pro bonde, enganar o Condutor? Não! Estava sem ânimo para pular do reboque para o carro da frente e vice-versa. Iria a pé, uma senhora caminhada, mais ou menos duas horas e com a garoa … “Ora! Vamos conversando e combinando uma tática para o torneio” Paulinho conversava com os botões, e assim foi, matutando como iria enfrentar os grandes e os pequenos como ele.
Chegou em casa cansado “pra chuchu” ainda assim deu mais uma polida no time e decidiu a escalação, deu uma bronca nos profissionais e comunicou que iria levar o time reserva para o torneio, pelo menos eles não usavam “salto alto”, jogam com o coração nos pés, honram a camisa.
O Domingo amanheceu radiante, céu limpo, brisa fresca, Paulinho se preparou, pegou seus “aspirantes”, deu uma olhada nos profissionais e disse: “Vocês vão ver, vamos com tudo e uma coisa é certa, a lanterna não trazemos”. Quando chegou em casa do Riquinho, a ostentação tirou-lhe um pouco o ânimo, aproximou-se do rapaz que preparava os papéis, o sorteio, a tabela e a inscrição.
- Oi Paulinho, como é nome do seu time.
- “Semblante”, respondeu firme.
- O bicho, tá me sacaneando? Você sabe o que significa essa palavra?
Não, Não – Paulinho respondeu tenso – Ouvi a professora falar este nome, acho que é estrangeiro, Semblante, é meu time reserva, os profissionais estão … ééé … precisam de uma lixada.
- Tá bão, Tá bão, - Riu o Secretário do Torneio - vê se não perde de muito, senta lá naquele banco e espera sua vez e fica quieto para não atrapalhar a concentração dos cobras.
Paulinho olhava os times de fábrica dos garotos, alguns tinham até duas cores, brilhavam! E na prateleira no canto o pai do Riquinho arrumava os prêmios, primeiro lugar uma medalha dourada e um time de fábrica, segundo um par de balizas de plástico, terceiro uma palheta de galalite e para o último, uma lanterna de balão.
A empregada da casa oferecia a todos, biscoito maria, guaraná e coca-cola, Paulinho não aceitava nada, não conseguiria engolir, estava com medo de passar vergonha. Feito o sorteio, observou que tivera sorte, já tinha ganho de alguns moleques de seu grupo, Riquinho ficou um tanto sério quando viu que quatro dos grandes ficara em sua chave, mas ele era o melhor, certamente conseguiria a classificação.
Dito e feito, Riquinho conseguiu o primeiro lugar na chave e Paulinho surpreendendo mais a ele do que aos outros, classificou-se apesar de um empate.
Paulinho adotara a tática desenvolvida nas duas horas de caminhada na noite anterior, conhecia todos os garotos, observara muitos jogos e sabia que todos atacam pelo centro, ele treinara muito chutes sem angulo e seus botões, por ser muito finos, cobriam a altura do goleiro com facilidade desde que chegasse perto da área, alem disso, comparado com os de fábrica, eram bem pequenos e quase sumiam na mesa, mas, confiava em seus “aspirantes”.
E assim foi, com humildade, jogando com toda a concentração, respeitando cada adversário, dando uma flanelada nos botões entre os jogos é que ele conseguiu chegar à semi-final. Estava satisfeito, bem que podia acabar ali, estava certo quando escalou os reservas, chegaria orgulhoso em casa, sua estratégia tinha dado certo até ali, deixava só dois pontas no ataque e o descaso na colocação dos goleiros, facilitava os gols de cobertura.
Riquinho passou fácil na semifinal, três a zero em um dos melhores da rua, seu pai estava orgulhoso, tinha certeza que o filho seria o campeão, Paulinho também … que pena, pensava, ele já tinha vários botões de fabrica e podia comprar mais quantos desejasse. Mas Riquinho, confiante, queria fazer a final com o adversário do Paulinho, seu amigo pessoal, assim teria mais graça, seria um jogo duro mas venceria com certeza. Assistia ao jogo dando força para o amigo, vaiava as jogadas de Paulinho e entoava: - paulinho sem pau é linho, paulinho sem linho é pau, tirando o pau do paulinho, paulinho fica sem … Bem … ele aguentava tudo até porque estava surdo a tudo e a todos, seu pensamento estava lá no Maracanã, os aspirantes dando o maior sufoco no Vasco, ignorando a chuva e a torcida contra, em maior número.
Paulinho chegou lá na direita, quina da grande área, sem angulo, o goleiro (caixa de fósforos recheada com chumbo derretido), na vertical, (naquele tempo, podia), deitou a palheta, caprichou e a bolinha (feita da parte metalizada, retirada com todo o cuidado, a fogo, da embalagem do cigarro Lincoln liso) subiu e cobriu o Fiat Lux, morrendo dentro daquela pequenina baliza de plástico.
Surpresa geral, mas ai foi aquela pressão, em volta da mesa e dentro dela, a partir daquele momento, Paulinho não conseguiu um chute a gol sequer, se virava como podia na defesa, e então deu se o milagre, o jogo acabou com a vitória do “Semblante”, aquele timeco de fichas de pôquer, com um moleque sem graça como técnico.
Afinal, a grande final. Todos já parabenizavam Riquinho, seu pai, balançava a medalha, seus irmãos menores, gritavam: é campeão, é campeão. Não havia dúvidas, Paulinho já contava com aquelas balizas de plástico, estava inchado de satisfação, só não participava da festa porque ninguém dava bola para ele. Ouvia sereno alguns que gritavam: “Ô Rico, dá de “enfiada” , “Ô Riquinho, dá um olé nele” … O pai, apesar de feliz vendo seu filho, com certeza campeão, estava um tanto constrangido olhando Paulinho arrumando seus botões humildemente, sem nenhum aborrecimento apesar das inúmeras gozações.
Já passava das duas da tarde, ninguém estava com fome, todos recheados com biscoitos e refrigerantes, um calor incomodo fazia molhadas as camisas, Riquinho, trocara várias vezes de roupa, Paulinho, depois de pedir licença, apenas tirara os sapatos, sabia que tirar a camisa na casa dos outros é falta de educação. O primeiro tempo terminou zero a zero, mas muita vibração por parte da torcida com quatro bolas nas traves de Paulinho. Agora no segundo tempo vai ser pra valer. – “Aí Rico, vai pra cima dele, encaçapa logo e termina com isso”
Mas naquele Domingo, a sorte estava com Paulinho, conseguiu apenas um chute a gol, em compensação, seu goleiro, fazia maravilhas, até parecia maior que os outros. Já perto do final, já se pensava nos pênaltis, seria sem graça, mas parecia que o Riquinho não estava inspirado … também! Jogar contra moleque de segunda categoria não dava motivação.
Corner para o “Semblante”, Paulinho ajeita a bolinha no canto e pede: - coloca,
¾ Sai dessa bicho, tá, tá …chuta logo.
¾ E Paulinho chutou, a bola fez curva, bateu na trave, no goleiro e, entrou.
Aí foi aquela confusão, … não valeu! Gol de corner não vale! Tem de ser indireto! Tinha que mandar colocar! Ele pediu pra colocar? Acho que não … todos tinham uma opinião exaltada, Riquinho estava pasmo, olhava para o pai meio desesperado… e agora? Tem desconto gritou um … só Paulinho estava impassível, qualquer que fosse a decisão deles, pouco importava, chegara muito, mas muito mais longe do que sequer poderia imaginar, claro que se ganhasse o time de fábrica, ai sim, seria um milagre, pouco importava a medalha, enquanto a discussão continuava ele tinha sua mente naqueles botões lá na prateleira … são lindos…
O jogo recomeça, alguém ajeitou o relógio para os descontos, Riquinho sério e concentrado, foi pra frente e no primeiro chute empatou, já passavam cinco minutos do tempo e ele perguntou: Quanto falta? Ainda dá tempo pro segundo, manda brasa Rico! Mais alguns minutos, uma chance bem de frente, Gooool do Rico …. É campeão urravam todos …. Acabou! Declarou o que estava em posse do relógio, foi ao apagar das luzes, emocionante.
O pai, pegou a medalha e prendeu na camisa do filho, e, enquanto todos paparicavam o campeão, Paulinho esperava seu merecido prêmio, as balizas, mas Seu Rico, foi até a prateleira, pegou o time de fábrica, colocou em uma caixinha de papelão, foi até Paulinho, entregou-lhe a caixa e disse: Garoto, você tem paixão, fique com estes botões, vá com Deus e volte sempre que quizer.
Paulinho foi para casa, apertando a caixa no peito, com os olhos úmidos disposto a perdoar o seu time de profissionais.
CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR BRASILEIRO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. BOTONISTA SAUDOSO DA PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS HORAS DE LAZER.
TEXTOS REPRODUZIDOS PARA O SITE INTERNACIONAL “FUTMESABRASIL.COM “ POR ENIO SEIBERT - E-mail: enioseibert@hotmail.com