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domingo, 18 de dezembro de 2011

Crônicas de Paulo Bosco

Estamos apresentando as crônicas de Paulo Bosco, botonista brasileiro residente na Grande Nova York - Estados Unidos, há cerca de 10 anos. Profissional na área de desenho industrial e arquitetura. É escritor espírita, autor do livro maravilhoso intitulado Redenção. Cronista nas horas vagas, autor de 22 crônicas brilhantes sobre o nosso esporte-hobby BOTONISMO, as quais estamos reproduzindo no futmesabrasil.com e futemesaypiranga.blogspot.com , com a sua devida autorização.

Revanche na Eternidade
Acredito que quando se aproxima a hora de pendurar a palheta, nossa memória, já enfraquecida, começa a relembrar pedaços da vida, vivida entre botões, mesas, amigos, bolinhas, redes, torneios, amistosos e “causos” que marcaram nossa trajetória por detrás de nossas palhetas.
Cursava o primeiro ano ginasial, no Colégio Dois de Dezembro no Méier, cidade do Rio de Janeiro. Era o primeiro ano em que passamos a usar calças compridas em nosso uniforme caqui. Eu, embora não pertencesse ao grupo das feras invencíveis - leia a coluna Um Domingo de Paixão - era, de certa forma famoso pois morava na mesma rua Peçanha da Silva, lá no alto de onde se descortina os bairros do Cachambi, Maria das Graças, Jacaré, Engenho Novo e Meier. Os rapazes lá do alto, fizeram nome entre os lá de baixo pois, além de serem exímios jogadores (também no futebol de salão) jogavam com botões fabricados em casa e quando desciam a ladeira para torneios, ninguém mais tinha chance.
Assim, como eu servia de “sparring” e sempre participava de nossos torneios de rua, ou melhor, de avenida como chamavam uma vila de apartamentos e casas bem em frente onde eu morava, também herdei a fama entre os garotos da minha idade, no colégio e bairros vizinhos, como o Paulinho dos botões de coco.
Foi então que, um colega da turma do colégio, Humberto …guri muito legal, gordinho, franjinha loura, sério, estudioso e muito bem educado, me convidou para uma partida em sua casa no bairro Maria das Graças. Depois de me explicar as condições do jogo, as regras em que estava habituado, o campo e sobre seu time comprado em São Paulo; curioso, mas sem muito entusiasmo, aceitei pensando … adversário diferente, time diferente, campo diferente … o que tenho a perder?
Combinamos que seria na sexta seguinte após as aulas e, por volta das cinco da tarde, lá fomos nós, pegamos o ônibus para chegar mais rápido - ele pagou – enquanto isso conversávamos sobre os nossos times. Ele já tinha ouvido falar de meus botões e de meus gols nem sempre ortodoxos e também ouvira que eu não era um “técnico” temível, daqueles que nem deixam o adversário pegar na bola mas afinal, dizia ele, jogar com alguém lá da turma da rua de cima seria, com certeza, uma experiencia inédita e sua mãe (dele) ficaria orgulhosa, principalmente se ele ganhasse.
Chegamos, meio sem graça pedi licença ao entrar – houve um tempo em que as pessoas eram educadas – fui apresentado à senhora que imediatamente nos convidou à copa para saborearmos refresco de maracujá e bolinhos e biscoitos que ela preparara para, segundo ela, aquela ocasião especial.
Terminado o maravilhoso lanche, eu já nem me lembrava o que estava fazendo lá, quando ela pediu ao filho que fosse trocar de roupa, algo mais confortável, afinal, ele deveria estar bem preparado para enfrentar o Paulinho da turma lá de cima. Como ele reagiu dizendo não ser necessário, ela quase o obrigou com aquele olhar de mãe que ninguém contraria. Enquanto esperávamos a volta de nosso “gorduchinho” ela gentilmente me ofereceu mais refresco e meio sem jeito disse: “olha Paulinho, eu sei da fama de vocês que jogam botão quase todos os dias, disputam torneios e até são convidados para jogos em bairros afastados, sei que vocês têm muita experiencia e uma habilidade fora do comum comparando com os outros meninos … sei que você têm liberdade de andar de bairro em bairro porque você está sempre em compania de rapazes mais velhos que certamente protejem você e outros da sua idade, o Humberto não têm essa liberdade pois sou muito medrosa, meu filho único, faço tudo para que ele tenha tudo em casa e este jogo representa muito para ele, assim, se não for pedir muito, não jogue tudo o que você sabe, faça ele se sentir que também é um bom jogador” … técnico, eu corrigi.
O campo era no chão do amplo quarto, linhas pintadas sobre os tacos e balizas lindas que eu nunca tinha visto, “feitas sob encomenda”, ele esclareceu. A mãe ficou à porta dando forças: “fica calmo meu filho”.
Começamos o jogo e eu empurrava meu time sem o entusiasmo costumeiro, ele, afinal, jogava bem mas faltava a experiencia em algumas situações. Eu me mantinha na defesa, não arriscava muito e às vezes nem ajeitava o goleiro, no intimo desejava que ele fizesse um gol e a partida terminasse. O primeiro tempo já estava por terminar e ele com um tiro certeiro da intermediaria, com meu goleiro deixando meia baliza aberta, ele finalmente explodiu de alegria, nunca tinha visto seu rosto tão vermelho e os dentes à mostra sem que a boca se fechasse … me lembro que só tirava notas altas mas nunca vibrou na escola como naquele momento do gol assim como a mãe no beiral da porta era só sorrisos pro seu pupilo.
O intervalo, foi maior que o normal, já anoitecia e eu teria que caminhar até em casa, e pensava: quase não chutei a gol, se fizesse, teria marcado pelo menos uns dois, mas não quero jogar água fria no moleque, vou aquentar o segundo tempo, vou brincar de linha de passes e segurar o resultado assim todo mundo fica satisfeito e quem sabe até posso ser convidado para novo lance.
Iniciamos o jogo e não é que logo na saída ele encaçapa outro? A mãe valia como uma torcida organizada, meu amiguinho jogava solto e pra frente e eu só olhava para relógio. Já nos últimos minutos, por erro dele, peguei uma bola rente à linha de fundos, próximo à grande área. Angulo zero, ele ajeitou o “kepper” e os “becões” – naquela época jogava-se com beques de um centímetro de altura e podia-se movê-los nos tiros a gol – chutei meio mordido pelos dois a zero, “assim também não” … a bola bateu na trave, no goleiro, caiu em cima do beque que era abaulado no topo e, caprichosamente, rolou para dentro.
Ele ficou paralizado, a mãe um tanto assustada em vendo o que eu podia fazer, tratou de incentivar o “bolinha” informando restar pouquissimos minutos e assim …trrrriiiiiiiiimmm … eles se abraçaram, ele suava embora estivesse frio, os dentes à mostra e os olhos brilhando e eu …. aliviado.
Não fui convidado a voltar, perdi o jogo, fiz um gol para contar como estou contando agora, participei de uma experiencia interessante, fiz uma família feliz, adorei o lanche, meu amiguinho comemorou como se tivesse ganho um campeonato e eu apenas não me esforcei … será isso um pecado? Magoei os deuses do Futebol de Botões? … Acredito que não, afinal, os fins justificam os meios desde que seja para a felicidade geral.
Se ele ler esta coluna, que saiba que: Valeu! Meu amigo, valeu ver seu esforço por este esporte que não morrerá nunca …quanto a mim, estarei na eternidade te esperando para uma revanche.


A Nuvem Negra

Final dos anos 40, o recente pós guerra  ainda deixava no mundo uma nuvem negra pairando sobre os homens. No Brasil, mais precisamente no centro geométrico do Rio de Janeiro, bairro que se chamava São Francisco Xavier, erguia-se um monstro de concreto que receberia o apelido de Maracanã.  Bem próximo, situava-se o Hospital Maternidade Graffe Guinle, e sob o enorme barulho, poeira e movimento frenético daquela obra de engenharia espetacular para a época, nascia um garoto em cujo sangue ficaria a marca daqueles tempos, enquanto muitos ainda choravam a saudade de maridos e filhos perdidos na guerra, enquanto muitos choravam a mutilação impiedosa de seus membros, resultado da ignorância humana, o povo brasileiro, sempre otimista e cheio de esperanças, concentrava suas energias otimistas no campeonato mundial e na seleção de jogadores brilhantes e quem tinha Zizinho não podia deixar de crer na vitória, certamente seriamos campeões do mundo, com toda certeza, não poderia haver sombra de dúvida.

Mas, havia aquela nuvem negra pairando no ar, aquele garoto podia sentir, algo estava errado.  O majestoso estádio, pelado em cor, mostrava apenas os gigantescos anéis, degraus sem fim de concreto onde 205.000 gargantas roucas cantariam o hino nacional, gritariam uníssonas os gols e dançariam ao som do gigantesco coro, a música, “touradas em Madrid” no baile de 6x1 contra a Espanha. O grande dia em que o Brasil consagraria Ademir, Danilo, Bigode, Jair … entre outros mágicos da bola, chegou.

A grande festa chega ao máximo com o gol de Friaça. O Uruguai empata aos 21 do segundo tempo e cala apenas uns poucos pessimistas já que o empate garantiria a Copa. Entretanto, a nuvem negra baixa até o gramado e então, aos 34 minutos, um desconhecido perna de pau chamado Ghiggia, faz o segundo gol. Os onze minutos finais foram aterradores, aquele caldeirão com duzentas e cinco mil almas angustiadas parecia um túmulo de cemitério abandonado, no silêncio profundo podia-se ouvir a respiração ofegante dos angustiados jogadores brasileiros e então, naqueles momentos tenebrosos começa a maldição Uruguaia, a nuvem negra chegara para ficar.

O garoto cresceu sob esta maldição, seu time de botão era ruim, desigual, materiais diversos e arranhados. Em um dos botões, faltava um pedaço do tamanho da bola, parecia uma garra de caranguejo, mas o garoto gostava dele, apesar de nunca ter feito um gol sequer com ele, porisso, o mantinha atrás dos atacantes.  Nos torneios em que freqüentemente participava, os colegas o achincalhavam chamando aquele estranho botão de Ghiggia.

Passaram-se os anos, uma nova geração chega aos gramados, uma geração de habilidade e humildade e entre muitos que passariam para a história, Garrincha e Pelé foram os astros maiores.  Pelé, o eterno rei, será sempre lembrado por sua extraordinária habilidade e também por sua humildade. Não se pode impedir a evolução assim então, um dia ele será superado o que não acontecerá com Garrincha pois este atípico personagem foi e será sempre insubstituível.

Estes que escreveram a nova história do futebol também foram os responsáveis pela dissipação da “nuvem negra”, esquecemos o passado mas não devemos esquecer a dolorosa lição que o “já ganhamos” não ganha jogo.

O garoto, continuava com seus alquebrados botões, tinha habilidade mas aqueles discos disformes não ajudavam na mesa, mesmo assim, naqueles tempos de euforia da bi-conquista da taça Jules Rimet, em um campeonato importantíssimo, organizado entre colégios particulares, o garoto chegava às finais. Livre da Nuvem Negra, o garoto se preparava para o jogo final. Do outro lado da mesa, seu adversário, mais jovem, junto com seus amigos de times impecavelmente novos e brilhantes cantavam e gritavam com a absoluta certeza da taça é nossa.


Aquela nova geração de meninos de uniforme de colégio, não sabiam quem era Ghiggia, mas a fama daquele botão estranho o precedia.  O garoto cuja humildade fora moldada desde o nascimento, jogava sério e tranqüilo, muita das vezes perdia bons lances em razão do péssimo estado de seus botões.  O campeão de muitos torneios escolares jogava fácil, alegre certo da vitória iminente, sem conhecer a verdade do passado, ria e zombava gritando: “vai Ghiggia, vai perna de pau”…

O garoto não se abalava, o jogo chegava aos minutos finais quando um passe daqui e dali o botão quebrado chega próximo à grande área, não tinha nome, ele, o garoto, não ousaria batizá-lo, compará-lo a algum craque da seleção ou de qualquer time, isso nunca.  O botão estava pronto para o chute, entretanto, aquela garra de caranguejo ficara bem à frente da bola. O que fazer? Outro toque, perderia o angulo que já era ruim.  O menino de uniforme impecável gritou, “chuta Ghiggia” e, sem alternativa, o garoto, respira fundo, olha para seu adversário e notou que por cima de sua cabeça havia algo parecido com uma nuvem, estremeceu,  precionou a palheta (à época ficha) e o famigerado botão enganchou a bola e entrou com tudo. Mais uma vitória do impossível.

Esta maldição não terminou ainda, e continuará perseguindo todos aqueles que se julgam invencíveis, que embora possuam a incrível habilidade de Garrincha, ainda não aprenderam a humildade de Pelé.










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