O
ESPORTE FUTEBOL DE BOTÃO É CAMPEÃO
É bem possível que aqueles que deram suas palhetadas neste torneio,
desenvolvido aos trancos e barrancos, não tenham levado em conta que tiveram a
oportunidade única de participar do primeiro encontro de botonistas, embora
ainda não oficial, nos Estados Unidos, ou pelo menos, no estado de Nova York
Como tudo na vida, o importante são as lições que ficaram e felizes
daqueles que levaram a sério e aprenderam, e treinaram e concluíram que são
capazes e que poderão levar este fascinante esporte adiante.
É certo que ainda haverão obstáculos pela frente, principalmente o
financeiro, entretanto, se houver boa vontade do grupo, será possível criar um
fundo e assim garantir a reserva da excelente área da Prefeitura em Hampton Bays
e em conseqüência, a criação da liga do table
soccer, já aprovada pela administração do parque. Esta pequena despesa, poderá, facilmente ser
retornada aos fundadores uma vez que iniciada a temporada, aos novos
integrantes, será cobrada a taxa de inscrição.
Mas afinal, como foi a final? Quem venceu, quem perdeu, quem
classificou? … Antes, é preciso ver quais foram as lições e, em cada um o
mérito do aprendizado. O resultado final
pode parecer ilógico, mas o futebol nunca teve lógica, é imprevisível e como
diria o tricolor Nélson Rodrigues, o sobrenatural de Almeida interferiu no
resultado.
A tabela, certa ou errada, foi adaptada para ajudar aqueles com poucos
pontos, zerando tudo para os quatro primeiros classificados terem iguais
chances para chegar à final. Dirão os
matemáticos que chegaram, naturalmente à final os dois com o maior número de
pontos ganhos. Sim! Mas porque eles
tiveram mais pontos? Porque são os melhores? Não! Foi porque desde o início
eles se esforçaram para ter o seu próprio time, seu goleiro, sua palheta …
trocaram um jantar em um restaurante barato pelos botões que são praticamente
eternos, levantaram o bumbum da cadeira, em frente da televisão e deram um
polimento no seu time e dedicaram alguns instantes pensando sobre a melhor
forma de distribuir os botões em campo, criaram uma tática própria e
disciplinaram suas terças-feiras à noite para um lazer saudável, criativo e
inspirador e assim, chegaram ao jogo final e receberam a incomparável
recompensa de sentir a indescritível emoção do imprevisível, um momento solene,
um momento mágico em que os botões criam vida e você no comando total de seus
movimentos, através da palheta dá as ordens ao time em campo. A concentração é total, o coração tende a
disparar, difícil controlar a tremedeira, o frio na espinha.
… No controle e domínio da mão a responsabilidade e seriedade de um
cirurgião, quando o adversário ordena: “ajeita” a respiração para e volta aliviada com a bola raspando a
trave. À sua frente você vê seu amigo,
nestes minutos um terrível adversário, implacável, não perdoa, ajeita o goleiro
com precisão milimétrica, direciona a
palheta como se fosse um bisturi, pressiona e lá vai bomba … e a bola,
caprichosamente, bate na quina do goleiro, na trave e não entra…
O Fluminense do Luiz
chegou à final invicto com seis pontos positivos à frente do segundo colocado o
Botafogo do Paulo, era o franco favorito, o preferido nas apostas e entre os
assistentes, o natural campeão. Luiz
tentava disfarçar o nervosismo, mas estava confiante, afinal em vários jogos
virou o placar vencendo com facilidade.
Levou o primeiro gol, empatou em seguida, levou o segundo, empatou
novamente e eu que ora lhes escrevo, apenas torcia para o empate. Ao final do segundo tempo de quinze minutos,
disputar os pênaltis e chegar ao merecido titulo de vice-campeão.
O cronometro disparou o alarme, final de jogo, 2x2. Alivio para mim, o Aldo comenta: só agora ele deu um sorriso. O Luiz continuava tranqüilo, comentando o
resultado, a torcida ainda do seu lado, a discussão passou a ser como decidir,
resolveu-se que, antes dos pênaltis, mais dois tempos, com sete minutos
cada. Eu não tive voz porque já não
conseguia falar, a garganta seca, o peso dos meus sessenta anos incomodava as
costas e doía nas pernas, mas a adrenalina ajuda nestes casos. Já conformado, sacrifiquei o que tenho de
melhor, o domínio nas trocas de passe para chegar próximo à área, adotei a
tática do Luiz, “passou da linha central, chuta” ele mesmo aconselhava antes do
jogo, enquanto assitiamos a disputa do terceiro e quarto lugares entre o Aldo
(Santa Cruz) e o Gangi G (Cagliari) e ainda o amistoso entre o Henry (Costa
Rica) e o Delvio (Palmeiras) … ele dizia: “a chance aumenta” e eu replicava:
“chegar próximo da área é mais bonito” e assim fomos para prorrogação.
Mas, enquanto aguardava a decisão do grupo, pensava em como comecei no
botonismo e olhei para os companheiros, alguns tiveram alguma experiencia
anterior e agora, depois de muitos anos, a exemplo do Aldo – o Santa Cruz de
Recife – e o Delvio – o Palmeiras de São Paulo - com alguma dificuldade, é
verdade, mas avançam instintivamente e sem perceber já fazem jogadas bonitas
que certamente estavam bem guardadas no fundo do arquivo desta paixão.
Observo também outros dois que nunca tiveram contato com o nosso bem
brasileiro, “Jogo de Botões”, começar sem jeito e em poucos jogos, sem se
incomodar com derrotas, já conseguem empates e até vitórias, o Henry da Costa
Rica e o Italiano Gangi, dá gosto de ver o esforço em aprender, de tentar o gol
e de repente, como recompensa a bolinha se esconde no fundo da rede em gol de
veteranos, explodindo o sotaque em gritos, pulos, uma alegria gostosa de ver em rostos
normalmente tão sérios em razão da dura faina diária.
Em um silêncio fora
do habitual, damos inicio à prorrogação, e, já que minha mão já dava sinais de
tremor, passei a chutar em todas as chances, o Luiz, animado, chegava fácil em
frente ao gol e ai então, o inesperado, fiz um gol, daqueles impossíveis, neste
momento o sobrenatural entrou em ação, o Luiz começa a perder gols que nunca
perderia, a confiança é substituída pelo nervosismo, eu que estava surdo, ouvi
lá ao longe o italiano Gangi G elogiar: “golazzo”, eu só queria
o empate e aí, não sei como, de repente, vi novamente a bola lá no gol do Luiz.
O meu amigo não podia acreditar no que via, eu, muito menos, pensei em
usar minha habilidade em tocar a bola e aguardar o empate, pois eu tinha
certeza que aconteceria logo, logo então alguém disse: “Luiz, você tem cinco
minutos para fazer dois gols … acredito que foi a gota para os nervos dele, eu
tinha certeza que ele conseguiria, era só torcer para que ele não conseguisse o
terceiro.
De repente, eu que estava meio anestesiado, ouvi como nos sonhos, lá ao
longe, o alarme … fim de jogo … Acabou? Perguntei … Ouvi o Luiz se lamentar com
a esposa, “perdi o torneio”. Eu não
contei à esposa, nem explodi ainda minha alegria, mas pode acontecer a qualquer
momento quando eu me der conta de que o jogo realmente acabou.
Mas afinal, quem foi o verdadeiro campeão?… Eu afirmo que ninguém perdeu
e ninguém conseguiu ganhar dele, pois foi ele, o melhor de todos, o impecável,
o incomparável, o incrível criador de emoções, a sublime arte do Futebol de
Botões … o ESPORTE, foi, mais uma vez, o verdadeiro CAMPEÃO.
Parabéns
a todos
CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR BRASILEIRO RADICADO
NOS ESTADOS UNIDOS. BOTONISTA SAUDOSO DA
PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS HORAS DE LAZER.
TEXTOS REPRODUZIDOS PARA O SITE INTERNACIONAL “FUTMESABRASIL.COM “ POR ENIO SEIBERT
- E-mail: enioseibert@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário