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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012


O Milagre no Futebol de Botões



José Carlos não se sabe como, nasceu botonista, desde muito pequeno adorava brincar com os botões que sua mãe, costureira, armazenava em sua caixa de costura.  Já no primeiro ano na escola pública ouvia de colegas que conheciam o Futebol de Botões, que os meninos das escolas particulares jogavam nos finais de semana.



Ele que morava no alto do morro, bem ao lado do campo do América, sempre que podia, se dependurava no barranco para assistir aos treinamentos daquele que é o mais simpático do Rio de Janeiro.  Mais um dia em sua rotina, foi até lá pois não haveria aula e o dia estava lindo, morno e agradável, mas para sua surpresa, até a pirambeira estava lotada, era um jogo treino do Flamengo … sabia-se lá por que cargas d’água eles estavam treinando lá.  Todo mundo queria assistir ao mais querido, ver os craques de perto, foi então que um garoto, bem vestido até, e que deveria estar lá dependurado por não ter conseguido ingresso, gritou: (após o Zico dar um baile na defesa e perder o gol) … ¾ O Zico …. Oooo Ziiicoooessa nem meus botões de defesa perderiam … foi ai que o Zé, sempre tímido, arriscou a pergunta:



Você joga botão? ¾ Claro! E você? ¾ Ah! Eu também! ¾ Qual o seu time? ¾ Botafogo ¾ E o seu? ¾ Flamengo, claro … Olha! Você poderia ir lá em casa para jogarmos um clássico. ¾ Éééé … eu gostaria muito mas meu time, sabe, está em treinamento na casa de um primo meu. ¾ E é longe? ¾ Muito longe, não dá pra buscar. Mentiu sem graça e já arrependido, pois não fazia parte de sua educação a mentira, fosse qual fosse.



¾ Então eu posso lhe emprestar  um dos meus times, você joga com os meus reservas e fazemos um jogo treino até que o seu primo lhe devolva o seu Botafogo. ¾ Esta combinado então.



Zé Carlos viveu naqueles dias que antecederam a visita à casa do novo amigo, um misto de ansiedade, curiosidade, medo e ao mesmo tempo o remorso da mentira.  Chegou o dia, chovia aquela garoa enjoada e bem típica do inverno carioca.  Chegando à casa, se benzeu e tocou a campainha, atendeu à porta um senhor de cabelos grisalhos e cachimbo na mão.



¾ Pois não? ¾ Meu nome é José Carlos, me chamam OiZé e fui convidado pelo Augusto para um jogo treino, … ele esta? ¾ Estou, mas não me lembro!

Brincou impressionado com a educação daquele menino simples que batia à sua porta e, diante de seu espanto, logo esclareceu:



¾ Não me leve a mal, também me chamo Augusto e o Augustinho está lá no quarto de brinquedos esperando por você … bemvindo à nossa casa e boa sorte, você vai precisar porque meu filho é muito bom neste jogo… Mas apenas me esclareça a curiosidade, porque “OiZé”? ¾ Ah! É assim, todo mundo que passa por mim diz: Oi Zé! E assim ficou OiZé….



OiZé, diante daquela mesa verdinha e vários times coloridos e perfeitamente organizados em uma prateleira, não conseguia expressar seu espanto e entusiasmo, estava sonhando acordado.



¾ Olha OiZé, você terá que esperar para o nosso jogo treino, um amigo lá da minha escola virá hoje para jogar um clássico muito importante comigo e ele deve estar chegando.  Quando o jogo terminar, tomamos um lanche e depois faremos o nosso treinamento.



Salvo pelo gongo, pensou OiZé, assim ele poderia observar e ver na prática como em verdade era o jogo e as regras de que tanto ouvira falar nas conversas com os colegas de escola.  O clássico era o Flá-Flu, começou com forte disposição de ambos. OiZé  parecia estar se preparando para um exame de final de ano, tamanha a sua concentração, seus olhos não perdiam um só movimento, seus ouvidos uma só palavra e ficou impressionado com a vitória do dono da casa por 3 a 1 que demonstrava segurança em sua habilidade, parecia feliz e relaxado.



Saborearam o lanche servido pela empregada da casa, “Seu” Augusto, dava umas cachimbadas e observava de longe e com prazer aquele menino mirrado e simpático, de roupas surradas, mas muito limpas e passadas a ferro, unhas e cabelos aparados; era bem pobre com certeza, mas muito bem educado, à mesa e ao se dirigir às pessoas.  Ótima companhia para seu filho, pensava.



O momento chegou …Este é um jogo treino para observação técnica  comentava Augustinho, e OiZé se esmerava atrapalhado com a palheta, quando esta escapulia de seus dedos ou o botão não saia do lugar …¾ desculpe, é falta de treino ¾ O Flamengo se prepara para o grande clássico contra o Botafogo. Augustinho, empolgado por ter conseguido alguém com quem poderia treinar e jogar. Por sua vez, “Seu” Augusto que sempre se mantinha à distância, tanto para não interferir quanto para deixar o novo amiguinho de seu filho à vontade, ao fim do jogo, ou melhor, do treino, se aproximou e notando a visível falta de experiência do convidado, perguntou: ¾ Ah! OiZé! Qual o seu time? ¾ Botafogo! ¾ E por que você não o trouxe? Augustinho se apressou em responder, não notando o rosto imediatamente vermelho de OiZé o que não passou despercebido pelo pai, que logo desconversou evitando embaraço maior. ¾ Volte sempre que desejar, a casa é sua. ¾ Obrigado, desculpe qualquer coisa, e lá foi OiZé subindo o morro, flutuando em seus sonhos ¾ Puxa! Quase fiz um gol.



O tempo passa, os jogos treinos continuam e a desculpa para o time não aparecer, fica cada vez mais dificil.  Seu pai é ferroviário, gostaria de realizar os sonhos do filho amado, além de recompensá-lo por ser estudante aplicado, mas a vida dura não da direito a sonhos materiais.  Era dezembro, a data difícil se aproximava, José Carlos nunca lhe pedira nada e não acreditava, assim como os demais meninos do morro, em Papai Noel; mas quando Zezinho lhe trouxe o boletim que demonstrava, mais uma vez, que tinha passado de ano com boas notas, arriscou a pergunta: ¾ Meu filho, o que você gostaria de ganhar neste Natal? ¾ Esperou a resposta com a mão gelada e ela veio sem rodeios: ¾ Um jogo de botões de madrepérola nas cores do Botafogo.



Foi um alivio para quem imaginava uma bicicleta, assim, dia seguinte começou a se inteirar sobre o que era um jogo de botões.  Conseguindo o endereço de uma fábrica, foi até lá decidido a fazer feliz o natal do filho, mas, para sua surpresa aquelas bolachas redondas, mais a tal da palheta, goleiro, balizas, bolas e etc., tinham o preço de uma bicicleta.  Nunca mentira ao filho e não seria daquela vez, chegou em casa e disse: ¾ Filho, o presente que você pediu e merece muito, esta acima de nossas condições no momento e espero que você compreenda. Reze ao todo poderoso que nos de saúde e não nos falte trabalho pois assim que for possível, eu lhe compro seu jogo e lembre-se, Jesus proteje sempre bons meninos como você.



O nosso botonista nato não ficou triste, compreendia a situação, mas tinha um problema, sua primeira mentira na vida tinha se tornado um pesadelo, falasse a verdade ao seu novo amigo, certamente não seria mais convidado a jogar o que seria uma perda muito grande em sua vida sem diversão. O que faria então?



Caminhava sem rumo e, passando por uma igreja, entrou, aproximou-se de um grupo de senhoras que estudavam o evangelho, pediu licença e perguntou:

¾ As senhoras poderiam me ensinar como faço para fazer um pedido a Jesus?

Eu não sei rezar muito bem e nunca encontro as palavras certas e bonitas para me dirigir a Ele.  ¾ Ora meu filho,- respondeu uma delas – simplesmente fale com Ele, Ele é todo ouvidos, principalmente com as crianças.



José Carlos se animou e resolveu fazer sua prece sentado em um banco da praça e em voz alta foi falando: "Jesus, sou eu. Olha, eu sei que não mereço porque eu contei aquela mentira pro me novo amigo, se você puder me perdoar, eu gostaria que você me conseguisse um time de botões, qualquer um e deixasse lá em casa. Jesus, você pega uma caneta que eu vou dizer onde fica" e, continuou: “você vai seguindo em frente e quando passar a ponte, você entra na segunda estradinha de terra. Não vá errar, tá?"



Os que estavam por perto achavam interessante aquele monólogo. Alguns, no entanto, mal podiam conter o riso. Mas ele, continuava: "Andando mais uns vinte minutinhos, tem uma vendinha. Pega a rua da mangueira que o barraquinho em que eu moro é o último da rua. Pode entrar, não tem cachorro. Olha, Jesus, a porta está trancada, mas a chave fica embaixo do capacho. O senhor pega a chave, entra e deixa o time na mesa. Mas, olha só Jesus, por favor não esqueça de deixar a chave de novo embaixo do capacho, senão eu não consigo entrar."



Terminada a oração, ele foi para casa. Ao entrar, sua mãe lhe disse: Deixaram uma caixa para você, tomei o maior susto, cheguei em casa mais cedo e vi que a porta estava aberta e alguém dentro de casa colocando uma caixa em cima da mesa, perguntei o que estava fazendo aqui e ele muito educado disse que era o pai de um amigo seu e estava trazendo uma encomenda, me entregou a chave pedindo que lhe informasse porque não a estava deixando debaixo do tapete.

Zé Carlos abriu o pacote e sorrindo disse: é o meu time de madrepérola, preto e branco, como eu sonhava.

Como é o nome deste senhor?Perguntou sua mãe!

Ah! É Jesus e acho que ele também é botafoguense, acertou direitinho nas cores…


Aos botonistas, meus agradecimentos pela paciência em ler as minhas colunas e um Feliz Natal a todos, especial aos “pouca prática” daqui de cima, aos Colunistas, leitores e amigos do Futebol de Mesa News.


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