O Milagre no Futebol de Botões
José Carlos não se sabe como, nasceu botonista,
desde muito pequeno adorava brincar com os botões que sua mãe, costureira,
armazenava em sua caixa de costura. Já
no primeiro ano na escola pública ouvia de colegas que conheciam o Futebol de
Botões, que os meninos das escolas particulares jogavam nos finais de semana.
Ele que morava no alto do morro, bem ao lado do
campo do América, sempre que podia, se dependurava no barranco para assistir
aos treinamentos daquele que é o mais simpático do Rio de Janeiro. Mais um dia em sua rotina, foi até lá pois
não haveria aula e o dia estava lindo, morno e agradável, mas para sua
surpresa, até a pirambeira estava lotada, era um jogo treino do Flamengo …
sabia-se lá por que cargas d’água eles estavam treinando lá. Todo mundo queria assistir ao mais querido,
ver os craques de perto, foi então que um garoto, bem vestido até, e que
deveria estar lá dependurado por não ter conseguido ingresso, gritou: (após o
Zico dar um baile na defesa e perder o gol) … ¾ O Zico …. Oooo Ziiicooo … essa
nem meus botões de defesa perderiam … foi ai que o Zé, sempre tímido,
arriscou a pergunta:
Você joga botão? ¾ Claro! E você? ¾ Ah! Eu também! ¾ Qual o seu time? ¾ Botafogo ¾ E o seu? ¾ Flamengo, claro … Olha! Você
poderia ir lá em casa para jogarmos um clássico. ¾ Éééé … eu gostaria muito mas meu
time, sabe, está em treinamento na casa de um primo meu. ¾ E é longe? ¾ Muito longe, não dá pra buscar. Mentiu sem graça e já arrependido,
pois não fazia parte de sua educação a mentira, fosse qual fosse.
¾ Então eu posso lhe emprestar um
dos meus times, você joga com os meus reservas e fazemos um jogo treino até que
o seu primo lhe devolva o seu Botafogo. ¾ Esta combinado então.
Zé Carlos viveu naqueles dias que antecederam a
visita à casa do novo amigo, um misto de ansiedade, curiosidade, medo e ao
mesmo tempo o remorso da mentira. Chegou
o dia, chovia aquela garoa enjoada e bem típica do inverno carioca. Chegando à casa, se benzeu e tocou a
campainha, atendeu à porta um senhor de cabelos grisalhos e cachimbo na mão.
¾ Pois não? ¾ Meu nome é José Carlos, me chamam OiZé e fui convidado pelo Augusto
para um jogo treino, … ele esta? ¾ Estou, mas não me lembro!
Brincou impressionado com a educação daquele
menino simples que batia à sua porta e, diante de seu espanto, logo esclareceu:
¾ Não me leve a mal, também me chamo Augusto e o Augustinho está lá no
quarto de brinquedos esperando por você … bemvindo à nossa casa e boa sorte,
você vai precisar porque meu filho é muito bom neste jogo… Mas apenas me
esclareça a curiosidade, porque “OiZé”? ¾ Ah! É assim, todo mundo que passa por mim diz: Oi Zé! E assim ficou
OiZé….
OiZé, diante daquela mesa verdinha e
vários times coloridos e perfeitamente organizados em uma prateleira, não
conseguia expressar seu espanto e entusiasmo, estava sonhando acordado.
¾ Olha OiZé, você terá que esperar para o nosso jogo treino, um amigo lá
da minha escola virá hoje para jogar um clássico muito importante comigo e ele
deve estar chegando. Quando o jogo
terminar, tomamos um lanche e depois faremos o nosso treinamento.
Salvo pelo gongo, pensou OiZé, assim ele poderia observar e ver na prática como em verdade
era o jogo e as regras de que tanto ouvira falar nas conversas com os colegas
de escola. O clássico era o Flá-Flu,
começou com forte disposição de ambos. OiZé parecia estar se preparando para um exame de
final de ano, tamanha a sua concentração, seus olhos não perdiam um só
movimento, seus ouvidos uma só palavra e ficou impressionado com a vitória do
dono da casa por 3 a 1 que demonstrava segurança em sua habilidade, parecia
feliz e relaxado.
Saborearam o lanche servido pela empregada da
casa, “Seu” Augusto, dava umas cachimbadas e observava de longe e com prazer
aquele menino mirrado e simpático, de roupas surradas, mas muito limpas e
passadas a ferro, unhas e cabelos aparados; era bem pobre com certeza, mas
muito bem educado, à mesa e ao se dirigir às pessoas. Ótima companhia para seu filho, pensava.
O momento chegou …Este é um jogo treino para
observação técnica comentava
Augustinho, e OiZé se esmerava
atrapalhado com a palheta, quando esta escapulia de seus dedos ou o botão não
saia do lugar …¾ desculpe, é falta de treino ¾ O Flamengo se prepara para o grande clássico contra o Botafogo. Augustinho, empolgado por ter conseguido alguém com quem poderia
treinar e jogar. Por sua vez, “Seu” Augusto que sempre se mantinha à distância,
tanto para não interferir quanto para deixar o novo amiguinho de seu filho à
vontade, ao fim do jogo, ou melhor, do treino, se aproximou e notando a visível
falta de experiência do convidado, perguntou: ¾ Ah! OiZé! Qual o seu time? ¾ Botafogo! ¾ E por que você não o trouxe? Augustinho se apressou em
responder, não notando o rosto imediatamente vermelho de OiZé o que não passou despercebido pelo pai, que logo desconversou
evitando embaraço maior. ¾ Volte sempre que desejar, a casa é sua. ¾ Obrigado, desculpe qualquer coisa, e lá foi OiZé
subindo o morro, flutuando em seus sonhos ¾ Puxa! Quase fiz um gol.
O tempo passa, os jogos treinos continuam e a
desculpa para o time não aparecer, fica cada vez mais dificil. Seu pai é ferroviário, gostaria de realizar
os sonhos do filho amado, além de recompensá-lo por ser estudante aplicado, mas
a vida dura não da direito a sonhos materiais.
Era dezembro, a data difícil se aproximava, José Carlos nunca lhe pedira
nada e não acreditava, assim como os demais meninos do morro, em Papai Noel;
mas quando Zezinho lhe trouxe o boletim que demonstrava, mais uma vez, que
tinha passado de ano com boas notas, arriscou a pergunta: ¾ Meu filho, o que você gostaria de
ganhar neste Natal? ¾ Esperou a resposta com a mão gelada
e ela veio sem rodeios: ¾ Um jogo de botões de madrepérola nas cores do Botafogo.
Foi um alivio para quem imaginava uma
bicicleta, assim, dia seguinte começou a se inteirar sobre o que era um jogo de
botões. Conseguindo o endereço de uma
fábrica, foi até lá decidido a fazer feliz o natal do filho, mas, para sua
surpresa aquelas bolachas redondas, mais a tal da palheta, goleiro, balizas,
bolas e etc., tinham o preço de uma bicicleta.
Nunca mentira ao filho e não seria daquela vez, chegou em casa e disse: ¾ Filho, o presente que você pediu e
merece muito, esta acima de nossas condições no momento e espero que você compreenda.
Reze ao todo poderoso que nos de saúde e não nos falte trabalho pois assim que
for possível, eu lhe compro seu jogo e lembre-se, Jesus proteje sempre bons
meninos como você.
O nosso botonista nato não ficou triste,
compreendia a situação, mas tinha um problema, sua primeira mentira na vida
tinha se tornado um pesadelo, falasse a verdade ao seu novo amigo, certamente
não seria mais convidado a jogar o que seria uma perda muito grande em sua vida
sem diversão. O que faria então?
Caminhava sem rumo e, passando por uma igreja,
entrou, aproximou-se de um grupo de senhoras que estudavam o evangelho, pediu
licença e perguntou:
¾ As senhoras poderiam me ensinar como faço para fazer um pedido a Jesus?
Eu não sei rezar muito bem e nunca encontro as
palavras certas e bonitas para me dirigir a Ele. ¾ Ora meu filho,- respondeu
uma delas – simplesmente fale com Ele, Ele é todo ouvidos,
principalmente com as crianças.
José Carlos se animou e resolveu fazer sua
prece sentado em um banco da praça e em voz alta foi falando: "Jesus, sou eu. Olha, eu sei que não mereço porque eu contei aquela
mentira pro me novo amigo, se você puder me perdoar, eu gostaria que você me
conseguisse um time de botões, qualquer um e deixasse lá em casa. Jesus, você
pega uma caneta que eu vou dizer onde fica" e, continuou: “você vai seguindo em frente e quando passar a ponte, você entra na
segunda estradinha de terra. Não vá errar, tá?"
Os que estavam por perto achavam interessante
aquele monólogo. Alguns, no entanto, mal podiam conter o riso. Mas ele,
continuava: "Andando
mais uns vinte minutinhos, tem uma vendinha. Pega a rua da mangueira que o
barraquinho em que eu moro é o último da rua. Pode entrar, não tem cachorro.
Olha, Jesus, a porta está trancada, mas a chave fica embaixo do capacho. O
senhor pega a chave, entra e deixa o time na mesa. Mas, olha só Jesus, por
favor não esqueça de deixar a chave de novo embaixo do capacho, senão eu não
consigo entrar."
Terminada a oração, ele foi para casa. Ao
entrar, sua mãe lhe disse: Deixaram uma caixa para
você, tomei o maior susto, cheguei em casa mais cedo e vi que a porta estava
aberta e alguém dentro de casa colocando uma caixa em cima da mesa, perguntei o
que estava fazendo aqui e ele muito educado disse que era o pai de um amigo seu
e estava trazendo uma encomenda, me entregou a chave pedindo que lhe informasse
porque não a estava deixando debaixo do tapete.
Zé Carlos abriu o pacote e sorrindo disse: é o meu time de madrepérola, preto e branco, como eu sonhava.
Como é o nome deste senhor?Perguntou sua mãe!

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