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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

 

Pendurar ou Não Pendurar a Palheta … Eis a questão!



Foi lá pelos idos de 1956 que eu e minha patotinha começamos a colecionar tudo o que era redondo e chato para depois lixar no cimento da calçada, dando ângulo à bainha e alizando em cima e embaixo com os parcos pedaços de lixa que meu avô (ourives e alemão) jogava fora.  Ele, que nada entendia de futebol, também nunca entendeu minha paixão em brincar com aqueles estranhos e desarticulados brinquedos. Também, não gostava de ver o risco que corríamos colocando pedaços de ferro nos trilhos dos bondes para moldá-los até que coubessem nas caixas de fósforos e muito menos aquelas latas com sebo derretido nas fogueiras do quintal e que usávamos para “azeitar” nossos pupilos. Mas … paixão não tem limites e assim o nosso grupinho, sempre à noite, depois da escola, jogava o campeonato Carioca e o Rio-São Paulo na mesa da cozinha da minha tia Frieda (alma boa e paciente).  Mas, estranho era o nome que meus amigos mais velhos colocavam nos botões, muitos eram Húngaros tidos como os bichos-papão à época e esses nomes eram obtidos na sintonia da rádio BBC de Londres.



Os anos passaram lentos e calmos (graças a Deus) e tivemos mais horas segurando a Palheta do que urubu de vôo. Todos possuíamos mais de um time, times de diversos materiais e tamanhos mas somente uma e uma única palheta. A palheta era algo mágico quardada com cuidado, segurança e carinho. Emprestar a palheta, como vemos hoje?  Mas nem pensar, nunca, jamais … onde já se viu emprestar a Palheta? Justamente a Palheta onde nós, técnicos, guardamos todas as nossas experiencias e conhecimento acumulado entre vitórias e derrotas? Ah não! Mas fácil seria emprestar a namorada mas a Palheta? “Sai dessa” diriam à época.



E o tempo, inexorável, passa e, como tudo, os botões também evoluíram, a princípio, depois dos cacos iniciais, foram as fichas de ônibus (daqui peço perdão aos motoristas e trocadores da época), depois, as fábricas de brinquedos colocaram aquelas “coisas” que todos nós conhecemos, mas a nossa patota, já estava em outro nível, ou devo dizer: categoria, não tínhamos recursos para aquelas caixinhas de botões, a mesada era curta mas a criatividade era enorme e o estágio seguinte foram os Botões de Coco com os quais jogo até hoje mas devo dizer que fiquei maravilhado quando descobri os botões deste século XXI, comprei um time com a camisa do meu Botafogo lá no Edu, reconheço que é lindo, acho que se fosse possível voltar no tempo e apresentar um time bonito como os de hoje a turminha ficaria encantada mas será que se adaptariam? Cada coisa a seu tempo, é certo que temos de crescer junto com a modernidade mas no meu caso, embora tenha tentado, não consegui.



É uma decisão difícil, pendurar ou não a Palheta, qual o momento certo? Acredito que ninguém sabe. Seria a condição técnica ou a condição física decadente. A princípio, imaginei que em não me adaptando aos novos times, regras e etc. a decisão seria inevitavelmente a aposentadoria.  Nos jogos de campeonatos onde a tensão aflora e qualquer jogada é vital, meus antigos botões de coco com diâmetros e alturas diversas e bainhas irregulares com ângulos em todos os graus, levam desvantagem no campo pois nem sempre tenho meu artilheiro em condição de chute a gol conquanto que para os meus adversários (ou diria amigos) qualquer botão chuta a gol.



Nesse caso então, tá resolvido, penduro.  Mas quando jogo amistosos e meus pupilos não têm a pressão da tabela, jogo bonito, eu mesmo me surpreendo como as minhas “quengas” como dizem os nordestinos, fazem jogadas tidas como impossíveis, aquelas tomadas de bola perdida, os gols sem ângulo sem contar as “pegadas” em profundidade que só meus “coquitos” conseguem fazer.  Sei que quem assiste gosta e às vezes, fico na dúvida se os elogios são para mim ou para os meus “jogadores” … no dia em que fomos entrevistados pelo jornal local, me apontaram dizendo: “ele confeccionou os próprios botões” porisso me sinto mais do que um técnico, me sinto um pai, até porque “converso com meus botões”.



Então, eis a difícil questão: Pendurar ou não pendurar.



Se pendurar e me dedicar somente à organização e divulgação do esporte, vou ficar como aquele torcedor no estádio que critica sempre: “este até a minha vó fazia” e se não penduro, como vou agüentar o esforço físico de até quatro jogos que em nosso regulamento são duas horas em três de competição?



Penso também na orfandade de meus queridos botões, certamente ninguém se arriscará a comandá-los, para os jovens, seria como dirigir um carro com embreagem do tipo “queixo duro” têm de ter muito jeito, muito sincronismo, muita habilidade e paciência no trato com estes maravilhosos botões vivos, nascidos para dar proteção à deliciosa e nutritiva polpa do coco e que se transformam para a eternidade em brilhosas peças de arte na arte incomparável do Futebol de Mesa.



Mergulhado nesta difícil decisão eu estava, entre um cochilo e outro, porque na minha idade, a melhor coisa que podemos fazer é dormir e assim voava eu através dos anos buscando na memória os milhares de lances inesquecíveis que vi nascer nas bainhas de meus botões, via-me distanciando de uma mesa verdinha com linhas impecáveis sonhando com um time de coco novinho em folha, ou melhor em casca, feitos por mãos capazes de um artesão profissional quando sou sacolejado por minha esposa.



“Hey, acorda! Teu filho lhe enviou uma caixa lá do Brasil”.  Ainda sem saber se estava acordado ou no mundo de Morfeu, examinei a caixa intrigado, sacudi … silêncio.  O que seria? Em outro momento, teria deixado a caixa para abrir depois, pois curiosidade não é o meu forte, mas naquele instante estava entorpecido por minha viagem na despedida do meu time.  Lentamente, comecei a desembrulhar, estava bem embalado, meus filhos sempre se preocupam quando enviam algo para nós, afinal são sete mil milhas aéreas entre o Rio e Nova York  e assim depois de muitas camadas de plástico, papel e jornal, meu velho coração sofrido com as tantas lutas necessárias à nossa evolução, quase parou.



Devo ter ficado pálido pois senti o sangue esvaziar a cabeça, minha esposa correu e trouxe o aparelho de pressão. “O que têm ai? Algum problema?”  Paralisado e com a garganta seca não podia responder, só olhava para aqueles maravilhosos botões de coco na caixinha, eram perfeitos, bainhas em angulo certo, defesa e ataque distintos, incrivelmente lisos e com alturas ideais …. eu sabia, eu ainda estava sonhando e devia estar sorrindo com cara de bobo alegre então, levei outro sacolejão e sai do marasmo e lá estavam eles acenando para mim, “vamos lá chefe, - é assim que meus botões me tratam – vamos pra mesa que estamos encerados e prontos para enfrentar qualquer adversário”.



Vamos lá, respondi e corrigi: “enfrentar amigos”



 
































PS.: Esta é uma estória verdadeira e só foi possível graças ao Sr. José (021) 32520804 exímio artesão que trabalha aos sábados na feirinha da Praça XV no centro da cidade do Rio de Janeiro, ao qual dedico meus sinceros agradecimentos por sua arte e ao meu filho Marcos,  pelo magnifico presente.





CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR BRASILEIRO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS.  BOTONISTA SAUDOSO DA PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS HORAS DE LAZER. 

TEXTOS REPRODUZIDOS PARA O SITE INTERNACIONAL  “FUTMESABRASIL.COM “ POR  ENIO SEIBERT  -  E-mail: enioseibert@hotmail.com


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