Pendurar ou Não Pendurar a Palheta … Eis a questão!
Foi lá pelos idos de
1956 que eu e minha patotinha começamos a colecionar tudo o que era redondo e
chato para depois lixar no cimento da calçada, dando ângulo à bainha e alizando
em cima e embaixo com os parcos pedaços de lixa que meu avô (ourives e alemão)
jogava fora. Ele, que nada entendia de
futebol, também nunca entendeu minha paixão em brincar com aqueles estranhos e
desarticulados brinquedos. Também, não gostava de ver o risco que corríamos
colocando pedaços de ferro nos trilhos dos bondes para moldá-los até que
coubessem nas caixas de fósforos e muito menos aquelas latas com sebo derretido
nas fogueiras do quintal e que usávamos para “azeitar” nossos pupilos. Mas …
paixão não tem limites e assim o nosso grupinho, sempre à noite, depois da
escola, jogava o campeonato Carioca e o Rio-São Paulo na mesa da cozinha da
minha tia Frieda (alma boa e paciente).
Mas, estranho era o nome que meus amigos mais velhos colocavam nos
botões, muitos eram Húngaros tidos como os bichos-papão à época e esses nomes
eram obtidos na sintonia da rádio BBC
de Londres.
Os anos passaram
lentos e calmos (graças a Deus) e tivemos mais horas segurando a Palheta do que
urubu de vôo. Todos possuíamos mais de um time, times de diversos materiais e
tamanhos mas somente uma e uma única palheta. A palheta era algo mágico
quardada com cuidado, segurança e carinho. Emprestar a palheta, como vemos
hoje? Mas nem pensar, nunca, jamais … onde
já se viu emprestar a Palheta? Justamente a Palheta onde nós, técnicos,
guardamos todas as nossas experiencias e conhecimento acumulado entre vitórias
e derrotas? Ah não! Mas fácil seria emprestar a namorada mas a Palheta? “Sai
dessa” diriam à época.
E o tempo,
inexorável, passa e, como tudo, os botões também evoluíram, a princípio, depois
dos cacos iniciais, foram as fichas de ônibus (daqui peço perdão aos motoristas
e trocadores da época), depois, as fábricas de brinquedos colocaram aquelas
“coisas” que todos nós conhecemos, mas a nossa patota, já estava em outro
nível, ou devo dizer: categoria, não tínhamos recursos para aquelas caixinhas
de botões, a mesada era curta mas a criatividade era enorme e o estágio
seguinte foram os Botões de Coco com os quais jogo até hoje mas devo dizer que
fiquei maravilhado quando descobri os botões deste século XXI, comprei um time
com a camisa do meu Botafogo lá no Edu, reconheço que é lindo, acho que se
fosse possível voltar no tempo e apresentar um time bonito como os de hoje a
turminha ficaria encantada mas será que se adaptariam? Cada coisa a seu tempo,
é certo que temos de crescer junto com a modernidade mas no meu caso, embora
tenha tentado, não consegui.
É uma decisão
difícil, pendurar ou não a Palheta, qual o momento certo? Acredito que ninguém
sabe. Seria a condição técnica ou a condição física decadente. A princípio,
imaginei que em não me adaptando aos novos times, regras e etc. a decisão seria
inevitavelmente a aposentadoria. Nos
jogos de campeonatos onde a tensão aflora e qualquer jogada é vital, meus
antigos botões de coco com diâmetros e alturas diversas e bainhas irregulares
com ângulos em todos os graus, levam desvantagem no campo pois nem sempre tenho
meu artilheiro em condição de chute a gol conquanto que para os meus
adversários (ou diria amigos) qualquer botão chuta a gol.
Nesse caso então, tá
resolvido, penduro. Mas quando jogo
amistosos e meus pupilos não têm a pressão da tabela, jogo bonito, eu mesmo me
surpreendo como as minhas “quengas” como dizem os nordestinos, fazem jogadas tidas
como impossíveis, aquelas tomadas de bola perdida, os gols sem ângulo sem
contar as “pegadas” em profundidade que só meus “coquitos” conseguem
fazer. Sei que quem assiste gosta e às
vezes, fico na dúvida se os elogios são para mim ou para os meus “jogadores” …
no dia em que fomos entrevistados pelo jornal local, me apontaram dizendo: “ele
confeccionou os próprios botões” porisso me sinto mais do que um técnico, me
sinto um pai, até porque “converso com meus botões”.
Então, eis a difícil
questão: Pendurar ou não pendurar.
Se pendurar e me
dedicar somente à organização e divulgação do esporte, vou ficar como aquele
torcedor no estádio que critica sempre: “este até a minha vó fazia” e se não
penduro, como vou agüentar o esforço físico de até quatro jogos que em nosso
regulamento são duas horas em três de competição?
Penso também na
orfandade de meus queridos botões, certamente ninguém se arriscará a
comandá-los, para os jovens, seria como dirigir um carro com embreagem do tipo
“queixo duro” têm de ter muito jeito, muito sincronismo, muita habilidade e
paciência no trato com estes maravilhosos botões vivos, nascidos para dar
proteção à deliciosa e nutritiva polpa do coco e que se transformam para a
eternidade em brilhosas peças de arte na arte incomparável do Futebol de Mesa.
Mergulhado nesta
difícil decisão eu estava, entre um cochilo e outro, porque na minha idade, a
melhor coisa que podemos fazer é dormir e assim voava eu através dos anos
buscando na memória os milhares de lances inesquecíveis que vi nascer nas
bainhas de meus botões, via-me distanciando de uma mesa verdinha com linhas
impecáveis sonhando com um time de coco novinho em folha, ou melhor em casca,
feitos por mãos capazes de um artesão profissional quando sou sacolejado por
minha esposa.
“Hey, acorda! Teu
filho lhe enviou uma caixa lá do Brasil”.
Ainda sem saber se estava acordado ou no mundo de Morfeu, examinei a
caixa intrigado, sacudi … silêncio. O
que seria? Em outro momento, teria deixado a caixa para abrir depois, pois
curiosidade não é o meu forte, mas naquele instante estava entorpecido por
minha viagem na despedida do meu time.
Lentamente, comecei a desembrulhar, estava bem embalado, meus filhos
sempre se preocupam quando enviam algo para nós, afinal são sete mil milhas
aéreas entre o Rio e Nova York e assim
depois de muitas camadas de plástico, papel e jornal, meu velho coração sofrido
com as tantas lutas necessárias à nossa evolução, quase parou.
Devo ter ficado
pálido pois senti o sangue esvaziar a cabeça, minha esposa correu e trouxe o
aparelho de pressão. “O que têm ai? Algum problema?” Paralisado e com a garganta seca não podia
responder, só olhava para aqueles maravilhosos botões de coco na caixinha, eram
perfeitos, bainhas em angulo certo, defesa e ataque distintos, incrivelmente
lisos e com alturas ideais …. eu sabia, eu ainda estava sonhando e devia estar
sorrindo com cara de bobo alegre então, levei outro sacolejão e sai do marasmo
e lá estavam eles acenando para mim, “vamos lá chefe, - é assim que meus botões
me tratam – vamos pra mesa que estamos encerados e prontos para enfrentar
qualquer adversário”.
Vamos lá, respondi e
corrigi: “enfrentar amigos”
PS.: Esta é uma
estória verdadeira e só foi possível graças ao Sr. José (021) 32520804 exímio
artesão que trabalha aos sábados na feirinha da Praça XV no centro da cidade do
Rio de Janeiro, ao qual dedico meus sinceros agradecimentos por sua arte e ao
meu filho Marcos, pelo magnifico
presente.
CRÔNICAS DE PAULO BOSCO, ESCRITOR
BRASILEIRO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS.
BOTONISTA SAUDOSO DA PÁTRIA E CRONISTA DE FUTEBOL DE BOTÃO DE MESA, NAS
HORAS DE LAZER.
TEXTOS REPRODUZIDOS PARA O SITE
INTERNACIONAL “FUTMESABRASIL.COM “
POR ENIO SEIBERT -
E-mail: enioseibert@hotmail.com

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