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sábado, 21 de janeiro de 2012

A purificação
(Por definição encontramos no dicionário que o significado de "catarse" é limpeza, depuração,purificação).

Que outras coisas fazem aqueles que se dedicam a uma distração, a um divertimento com extremo gosto e apuro? Que outra coisa fazem aqueles que esquecem tudo o mais no momento de puro êxtase quando realizam o que mais gostam por simples vontade, inexplicável impulso inconsciente de bom?


O brilho dos botões, o tamanho e a planura da mesa verde, a iluminação, o apetite, o prazer. Os botões tem vida, vida mesmo, com coração, pulmão e fezes, a gente conversa com eles, um papo silencioso, estranho mas verdadeiro. Os nossos botões. A gente sabe...

Botão é jogo de criança. Isso dizem uns. Com essa idade jogando botão, ora veja... Apregoam outros. E a gente quieto. Mal sabem eles que estão com a razão. Sim, estão com a razão. Mas não toda.


A medida que a noite de quinta se aproxima, a nossa idade diminui, a minha pelo menos, rapidamente, para alcançar a dos outros. Mas em contra partida, a importância e a seriedade do jogo aumenta, e vai deixando de ser jogo de criança, também rapidamente. A idade em que se dá o encontro dessas duas correntes, que se deslocam em sentido contrário, é indefinida, porém, certamente não é infantil. É nesse encontro então que acontece a "pororoca orgásmica"...

Sim, a "pororoca orgásmica", momento único de prazer do botonista. A alegria do gol e da vitória, do chute na trave, da cobertura bem feita, ou a surpresa negativa do gol contra, da lateral cedida e da falta. Ah, e do pênalti. Esquecemos do pênalti. Hum..., meio sem graça o pênalti.

E assim a noite passa, rapidamente. Sobram lembranças dela que aos poucos se desvanecem na semana de trabalho.

Para os de "má noite", o travesseiro duro aos poucos amolece e os malditos botões passam a ser olhados, novamente com algum sentido positivo. Para os que brilharam, o pensamento que insiste na lembrança é o dos adorados heróis fazendo seus gols nos devaneios que precedem o sono. Mas disto tudo sempre sobra algum lucro, tanto para uns como para outros.

Pouco a pouco modelamos nossos impulsos, numa espécie de praxiterapia, aprendendo a aceitar a derrota, as vezes cruel e injusta, quase sempre de indisfarçável ou melhor dizendo, de disfarçada solidariedade e falsa compreensão. O aceitar a derrota, o sofrer calado, ou com explicações que nada adiantam, a sensação terrível de que nada mais de bom existe na vida, por incrível que pareça é salutar, pois que inconseqüente. Esta conformidade forçada, sutilmente nos prepara para a aceitação também de inevitáveis derrotas na vida, estas sim, por vezes conseqüentes de atrozes. Nos ensina que por mais próximo que pareça o fim do mundo, sempre haverá outra noite de quinta, outra manhã de sol, outro domingo no parque.


CLÓVIS ANGELI
Médico Traumatologista - Sócio Fundador da Assoc. de Fut. de Mesa de Taquara/RS. Revista Futebol de Botão N.º 5 - Pág. 2
Contribuição enviada por Oberici Carvalho

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