TRANSCRIÇÃO DE REPORTAGEM DE CAPA S/FUTEBOL DE MESA DA REVISTA PLACAR
FUTEBOL DE BOTÃO : UMA CURTIÇÃO NACIONAL / UMA MANIA PARA TODAS AS IDADES
ENQUANTO LUTA POR UM REGULAMENTO UNIFICADO, O JOGO CONTINUA ENCANTANDO VELHOS, MOÇOS E MUITA GENTE FAMOSA.
Concentrado dentro de uma caixa de charutos nicaragüenses, o time do Flamengo aguardava mais uma grande partida. Jogando em casa, no Estádio Osmar Prado, uma homenagem ao seu construtor, o Mengão não temia o Botafogo de Ribeirão Preto, comandado pelo técnico Sócrates.
Como se previa, a equipe carioca venceu por 1 x 0, para delírio do ator Osmar Prado, o Tabaco da novela Roda de Fogo, também técnico do Flamengo. Uma cena de ficção científica? Nada disso. Simplesmente uma partida de futebol de botão.
Como os dois amigos, milhões de adultos e crianças repetem as geniais jogadas de seus craques prediletos, só que com as mãos. Não existe jogo mais democrático que ele. Afinal, pode-se brincar com botões de casaco, tampinhas de relógio, pedaços de casca de coco ou times incrementadíssimos, feitos sob medida. “Não existe válvula de escape melhor” , proclama o desenhista Maurício de Souza, 51 anos, pai da Turma da Mônica. “Gosto tanto do jogo que construo meus próprios campos” , faz coro o jornalista econômico Joelmir Beting, 50 anos, da Rede Globo. É uma diversão fantástica” , resume Antônio Fagundes, contumaz adversário de Gianfrancesco Guarnieri e Toquinho, em disputados campeonatos regados a muita cerveja.
Para um considerável número de botonistas, porém, o negócio deixou de ser uma inocente brincadeira. Estima-se que existam 30.000 deles inscritos em federações. Este número só não é preciso porque ainda não existe um órgão centralizador de verdade. “Para nós, é um verdadeiro vício” , garante Antônio Maria della Torre, 44 anos, vice-presidente da Federação Paulista de Futebol de Mesa. Aliás, pronunciar o nome “jogo de botão” diante de um destes fanáticos pode até provocar urticárias. Consideram isto uma verdadeira heresia.
INÚMERAS DIFERENÇAS - Antônio Maria, como toda a legião de federados, lamenta apenas que o jogo de botão – com o perdão da palavra –não tenha sido reconhecido ainda como um esporte. “ O C.N.D. não está fazendo nenhuma força para isto” , suspeita o dirigente paulista. Reconhece, no entanto, que os próprios botonistas são responsáveis por esta situação. Para se ter uma idéia, o jogo de botão não tem sequer regras unificadas. “Muitas vezes, a forma de jogar difere de uma rua para a outra” , lamenta o comerciante pernambucano Amílcar Leite Ribeiro, 50 anos, fabricante de equipes. “Os botonistas são muito teimosos e querem sempre que prevaleça sua forma de jogar” , completa Agacir José Eggers, 45 anos, presidente vitalício da Federação Paranaense.
As diferenças são inúmeras, a começar pelo número de toques que cada jogador pode dar, o tempo de duração de uma partida, as dimensões do campo e o tipo de bolinha, achatadinha ou redonda e de feltro.
O gaúcho Enio Seibert, 40 anos na época, (hoje sessentão), redigiu um livro de normas padronizadas, na verdade uma mistura selecionada de regras da Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Distrito Federal. “ O ideal é que todos se conscientizem para chegarmos a um acordo” , diz Enio. “É claro que existiriam algumas categorias”. Não é de hoje que se tenta uma unificação das regras. Há quinze anos, um congresso em Salvador serviu apenas para referendar o regulamento baiano, imposto por seus praticantes. Hoje o regulamento baiano é chamado também de brasileiro, mas nem por isso joga-se apenas com ele.
Segundo o C.N.D., este jogo – cuja invenção remonta ao início do século, com o nome de Celotex - não demanda nenhum esforço físico. Portanto, como o xadrez, o dominó ou o carteado, não poderia ser rotulado de esporte. “É um absurdo”, revolta-se o mineiro Benjamin Abaliac. “Precisamos de um preparo físico tão bom quanto qualquer jogador de sinuca.” É verdade. Calcula-se que, durante uma partida, cada técnico, como se autodenominam , percorra 1 km ao redor da mesa. Alguns deles costumam disputar doze partidas num só dia. “Além do aspecto físico, existe também o mental” , avalia Joelmir Beting. “Com ele, podemos desenvolver a criatividade e a imaginação”. O botonista gaúcho Cláudio Schemes, 34 anos na época (hoje na casa dos 60 anos), assina embaixo: “É uma verdadeira terapia para todas as idades. Sinto-me sempre como um adolescente”. Um grande número de pais costuma ensinar aos filhos na tenra infância as manhas e os métodos do botonismo. Mas aconteceu o inverso na casa do galã Tony Ramos. Seu filho Rodrigo, de 16 anos, precisava de um adversário. De tanto insistir, conseguiu que o pai topasse o desafio. Resultado: Tony também se apaixonou: “ É realmente um jogo muito bonito”, elogia. Rodrigo continua participando de competições contra os amigos e já está se revelando um excelente jogador.
ILUSTRE CLIENTELA - À margem das confusões nos bastidores, todos os botonistas preocupam-se sempre em entrar em campo com verdadeiros craques. Por isso, os profissionais especializados na confecção de verdadeiras obras artesanais são extremamente valorizados. É o caso do paulista Lorival de Lima. Ele recebe pedidos de 22 Estados e tem ilustres clientes – celebridades como o deputado federal eleito Delfim Netto, o ex-ministro do Trabalho Murillo Macedo e a roqueira Rita Lee. O grande segredo para o sucesso de seus botões é a personalização de cada um deles. “Calculo o peso da mão do jogador e o ângulo em que ele move o botão com a palheta”, ensina Lorival. Um time, com dez jogadores, um goleiro e dois reservas, custa entre 200 e 450 cruzados.
Criador do primeiro botão em acrílico feito no Brasil – material que utiliza até hoje - , Lorival, 44 anos, já recebeu inúmeros convites para industrializar seus pequeninos craques. Mas não aceitou compartilhar sua refinada técnica com barulhentas máquinas. A fila de espera é de um mês.
O baiano Milton Ferreira da Silva também recusou, alguns anos atrás, uma milionária proposta da Estrela, o maior fabricante de jogos e brinquedos do país. Milton faz seus botões com a resina acrílica Palaton, a mesma usada para a confecção de dentaduras. Deve ser por isso que dizem que seus jogadores costumam “comer a bola”. Cada time demora um dia para ser feito e custa 500 cruzados.
Existem, é claro, equipes mais populares e por um preço mais acessível. A Brianezi, uma tradicional fábrica localizada no bairro paulistano de Belém, fabrica 245 times - 130 equipes brasileiras, setenta estrangeiras de 23 países e 45 seleções -, vendidos a 140 cruzados cada estojinho. Em sua linha de produção, figura até hoje o extinto CEUB de Brasília. Flamengo e Corínthians , os clubes mais populares do Brasil, representam 30 % do total das vendas.
A indústria de brinquedos Gulliver, por sua vez, fabrica botões ainda mais em conta. “É um brinquedo clássico, que sempre encontra um lugar no mercado”, assegura Samuel Neves, gerente comercial da empresa. Em 1986, para se ter uma idéia, a Gulliver colocou na praça 150.000 equipes – ou 1,5 milhão de jogadores e 150.000 goleirinhos - , que representaram 2.9 % de seu faturamento mensal. A Gulliver tem em seu catálogo apenas os vinte maiores times do país, que custam entre 10 e 40 cruzados. Com isso, domina sozinha esta faixa do mercado, já que a principal rival acabou com sua produção.
MEMORÁVEIS BRONCAS - A Estrella liderou as paradas durante muitos anos. Tanto que seu Estrelão virou sinônimo para campo de futebol de botão. Mas encerrou a produção justamente na época em que alguns clubes pensavam em exigir o pagamento de royalties pelo uso de seus escudinhos.
Para os menos comodistas , entretanto, montar seus próprios times também é uma grande curtição. Assim , o popular escritor Fernando Sabino ainda se lembra das memoráveis broncas que levava da mãe, quando ela descobria que os botões de seu casaco de frio haviam sido transformados em um arisco ponta ou num habilidoso meio-campista. “Raspava-os no calçamento e eles se transformavam em craques de verdade”, lembra Sabino, com certa nostalgia. “Valia a pena ser tão severamente punido”. O craque de vôlei Bernard, do Bradesco, não enfrentou o mesmo problema: “Usava tampas se relógios antigos, que conseguia com os relojoeiros do bairro”. Osmar Prado, 37 anos na época (hoje também sessentão), conta que fez um time inteiro com casca de coco. “Minha prima gostou tanto que pegou todos eles e colocou num vestido.”
O único medo desta velha geração de botonistas é que os videojogos, os brinquedos computadorizados e os bonecos da turma do implacável He-Man consigam destruir o encanto e a magia que o jogo de botão costuma despertar nas crianças de hoje. “Torço para a garotada não deixar morrer este jogo tão interessante”, reza o ator Barrinhos, o popular Araken, 41 anos, da Rede Globo. Por enquanto, Barrinhos pode ficar sossegado. Pelo menos se depender de Juninho Bill e Luciano Nascimento, integrantes do grupo musical infantil Trem da Alegria, ambos com 13 anos, o futebol de mesa não corre nenhum risco. Nem mesmo nas viagens eles largam seus times. Quando a demora dos vôos é muito grande, eles improvisam um campo no chão do aeroporto, sob olhares atravessados de passageiros e aeroviários.
Loucuras e manias, aliás, não faltam nesse universo. O baiano Sólon Rocha montou uma equipe chamada Império Serrano. Deu aos botões nomes de atrizes e modelos famosas, como Monique Evans, Xuxa, Márcia Porto e Maitê Proença. O goleiro foi batizado de Wilza Carla. O cantor e compositor Chico Buarque de Holanda encontrou uma fórmula mais simples para chamar seus craques: Camarada 1, Camarada 2, Camarada 3 e assim por diante. O locutor esportivo , empresário e treinador Luciano do Valle já revelava dotes de narrador durante suas próprias partidas. No rol das invenções, o ator Osmar Prado, ele outra vez, colocou feltro dentro dos gols. Assim, mesmo que seja chutada com força, a bolinha pára dentro do gol. E ninguém, graças a isso, fica com dúvida se ela entrou ou não. “Então, é só correr para a torcida e comemorar o golaço”, brinca.
MASSAGEM E PRELEÇÃO – Há outros truques: antes de cada partida, o mineiro Benjamin passa cerca de meia hora encerando seus jogadores. “Se um dia eu ganhar na Loto, contrato um massagista para eles”, promete. Já o paranaense Agacir José não coloca seus botões no campo antes de demorada preleção. “É preciso conversar com eles, pedindo para que não travem a bola na hora de um chute”, justifica Agacir. Mas nenhum a dessas loucuras é comparável à do ex-diretor do Coritiba, Luís Afonso Camargo. Ele dava até “bichos” para seus botões em caso de vitória. Colocava-os no bolso e levava ao cinema.
Fim.
Como podemos concluir após a leitura da matéria, desde o ano de 1987, data da grande reportagem de capa da revista PLACAR, o futebol de botão de mesa brasileiro, continua enfrentando nos dias atuais, praticamente, os mesmos problemas daquela época:
DIVERSIDADE DE REGRAS - FALTA DE UM REGULAMENTO UNIFICADO ( FATORES DECISIVOS NA VISÃO DA GRANDE IMPRENSA PARA SUA POUCA DIVULGAÇÃO) E CONCORRÊNCIA DOS JOGOS ELETRÔNICOS E BRINQUEDOS COMPUTADORIZADOS.
Matéria reproduzida pelo botonista Enio Seibert, participante da reportagem nacional em Porto Alegre – Rio Grande do Sul . Email: enioseibert@hotmail.com
Principal mentor e coordenador da Regra Unificada de Futebol de Mesa e da constituição jurídica da União Brasileira de Futebol de Mesa.

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