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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ANO 1987 REVISTA PLACAR


TRANSCRIÇÃO  DE  REPORTAGEM DE CAPA  S/FUTEBOL DE MESA DA REVISTA PLACAR

FUTEBOL DE BOTÃO : UMA CURTIÇÃO NACIONAL  / UMA MANIA PARA TODAS AS IDADES
ENQUANTO LUTA POR UM  REGULAMENTO UNIFICADO,  O JOGO CONTINUA ENCANTANDO VELHOS, MOÇOS E MUITA GENTE FAMOSA.


Concentrado dentro de uma caixa de charutos nicaragüenses, o time do Flamengo aguardava mais uma grande  partida.  Jogando em casa, no Estádio  Osmar Prado, uma homenagem ao seu construtor, o Mengão não temia o Botafogo de Ribeirão Preto, comandado pelo técnico Sócrates.
Como se previa, a equipe carioca venceu por   1 x 0, para delírio do  ator Osmar Prado, o Tabaco da novela  Roda de Fogo, também técnico  do Flamengo.  Uma cena de ficção  científica?  Nada disso.  Simplesmente uma partida de futebol de botão.
Como os dois amigos, milhões de  adultos e crianças repetem as  geniais jogadas de  seus craques prediletos, só  que com as mãos.   Não  existe jogo mais democrático que  ele.  Afinal, pode-se brincar com  botões de casaco, tampinhas de relógio, pedaços de casca de coco ou  times incrementadíssimos, feitos sob medida.  “Não existe válvula de escape melhor” , proclama o desenhista  Maurício de Souza, 51 anos, pai  da  Turma da Mônica.  “Gosto tanto  do jogo que construo meus  próprios campos” , faz coro o jornalista  econômico Joelmir  Beting, 50 anos, da  Rede Globo.  É uma diversão fantástica” , resume Antônio Fagundes, contumaz  adversário de  Gianfrancesco  Guarnieri    e  Toquinho, em disputados campeonatos regados a muita cerveja.  
Para um considerável número de botonistas, porém, o negócio deixou de ser uma inocente brincadeira.  Estima-se que existam 30.000 deles inscritos em federações. Este número  só não é preciso porque ainda  não existe um órgão centralizador de verdade.  “Para nós, é um verdadeiro vício” , garante Antônio Maria  della Torre, 44 anos, vice-presidente  da Federação Paulista de Futebol de Mesa.  Aliás, pronunciar o nome “jogo de botão” diante  de um destes fanáticos pode até  provocar urticárias.  Consideram isto uma verdadeira  heresia.
INÚMERAS  DIFERENÇAS  -  Antônio  Maria, como toda a legião de federados, lamenta apenas que o jogo de  botão – com o perdão da palavra –não tenha sido reconhecido ainda  como um esporte.  “ O  C.N.D. não  está fazendo nenhuma força  para isto” , suspeita o dirigente paulista.  Reconhece, no entanto, que os   próprios  botonistas são responsáveis  por esta situação.    Para  se  ter uma idéia, o jogo de botão não tem sequer  regras unificadas.  “Muitas vezes, a forma de jogar difere de uma  rua para a outra” , lamenta o comerciante  pernambucano  Amílcar Leite Ribeiro, 50 anos, fabricante de  equipes.  “Os botonistas são muito  teimosos e querem sempre  que  prevaleça   sua forma de jogar” , completa Agacir José  Eggers, 45 anos, presidente vitalício  da Federação  Paranaense.
As diferenças são  inúmeras, a começar  pelo número de toques que cada jogador pode dar, o tempo de duração de uma partida, as dimensões do campo  e o tipo de bolinha, achatadinha ou  redonda e de feltro.
O  gaúcho  Enio Seibert, 40 anos na época,  (hoje sessentão), redigiu um livro de  normas  padronizadas, na verdade uma   mistura  selecionada de regras da Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e  Distrito Federal.  “ O ideal é que  todos se conscientizem para chegarmos  a  um acordo” , diz Enio.  “É claro que  existiriam  algumas  categorias”.  Não é de hoje que se tenta  uma unificação das regras.  Há quinze anos, um congresso em Salvador serviu apenas para  referendar o regulamento baiano, imposto  por seus  praticantes.  Hoje o  regulamento  baiano é chamado também de brasileiro, mas nem por isso joga-se apenas  com ele.
Segundo o C.N.D., este jogo – cuja  invenção remonta  ao início do século, com o nome de Celotex -  não demanda nenhum esforço físico.  Portanto, como o xadrez, o dominó  ou o carteado, não poderia ser  rotulado de esporte.  “É um absurdo”, revolta-se o  mineiro Benjamin Abaliac.  “Precisamos de um  preparo  físico tão bom  quanto qualquer  jogador  de sinuca.”  É verdade.  Calcula-se  que, durante uma partida,  cada técnico, como se autodenominam , percorra   1 km  ao redor  da mesa.  Alguns deles  costumam disputar  doze partidas   num só dia. “Além  do aspecto físico, existe também o  mental” , avalia Joelmir Beting.  “Com ele, podemos  desenvolver a criatividade e a imaginação”.  O botonista gaúcho Cláudio  Schemes, 34 anos  na época  (hoje  na casa dos  60 anos), assina embaixo:   “É uma verdadeira   terapia para todas as idades.  Sinto-me  sempre como  um adolescente”.  Um grande número de  pais  costuma ensinar  aos filhos na tenra  infância as manhas e os  métodos do botonismo.  Mas aconteceu o inverso na casa do galã  Tony Ramos.  Seu filho  Rodrigo, de 16 anos, precisava de  um adversário.  De tanto  insistir, conseguiu que o pai topasse  o   desafio.  Resultado:  Tony também  se apaixonou:  “ É realmente  um jogo muito  bonito”, elogia.  Rodrigo  continua participando de competições contra os amigos e já  está se  revelando um excelente jogador.
ILUSTRE CLIENTELA  -  À margem  das  confusões nos bastidores, todos os  botonistas preocupam-se sempre  em entrar em campo com verdadeiros craques.  Por isso, os profissionais especializados na confecção de verdadeiras obras artesanais são extremamente  valorizados.  É o  caso do  paulista Lorival de Lima.  Ele recebe  pedidos de 22 Estados e tem ilustres  clientes – celebridades como o  deputado federal  eleito Delfim Netto, o ex-ministro do Trabalho Murillo Macedo e a roqueira  Rita Lee.  O  grande segredo para o sucesso de  seus botões  é a  personalização de cada  um deles. “Calculo o peso da mão do jogador  e o ângulo em que  ele move o botão com a palheta”,  ensina Lorival.  Um time, com dez jogadores, um goleiro e dois  reservas, custa entre 200 e 450 cruzados.
Criador  do primeiro botão em acrílico feito no Brasil – material  que utiliza até hoje - , Lorival, 44 anos,  já recebeu inúmeros convites  para industrializar seus pequeninos craques.  Mas não aceitou compartilhar  sua refinada  técnica com barulhentas máquinas.  A fila de espera é  de um  mês.
O baiano  Milton  Ferreira da Silva também recusou, alguns anos atrás,  uma milionária  proposta  da  Estrela, o maior fabricante de jogos e brinquedos  do país.  Milton faz seus botões com a resina acrílica  Palaton, a mesma usada para a confecção de dentaduras.  Deve ser por isso que  dizem que seus jogadores costumam  “comer a bola”.  Cada time demora  um dia para ser feito e custa 500  cruzados.
Existem, é claro, equipes mais populares e por um preço mais acessível.  A Brianezi, uma tradicional fábrica localizada no bairro paulistano  de Belém, fabrica  245 times  - 130 equipes  brasileiras, setenta  estrangeiras de 23 países e 45 seleções  -, vendidos a 140 cruzados cada estojinho.  Em sua linha de produção, figura até hoje o extinto CEUB de Brasília.  Flamengo  e Corínthians , os clubes mais populares do  Brasil, representam 30 % do total  das vendas.
A indústria de brinquedos Gulliver, por sua vez, fabrica botões  ainda mais em conta.  “É um brinquedo clássico, que sempre  encontra  um lugar no mercado”, assegura  Samuel  Neves, gerente comercial da empresa.  Em 1986, para  se ter uma idéia, a Gulliver colocou na praça  150.000 equipes – ou 1,5 milhão de jogadores   e 150.000  goleirinhos - , que representaram 2.9 %  de seu faturamento mensal.  A Gulliver  tem em seu catálogo apenas os vinte maiores  times do país, que custam entre  10 e 40 cruzados.  Com isso, domina  sozinha esta faixa do mercado, já que a principal rival acabou com  sua produção.
MEMORÁVEIS   BRONCAS -  A Estrella liderou as paradas durante  muitos anos.  Tanto  que seu Estrelão  virou  sinônimo para campo de futebol de botão.   Mas encerrou a produção justamente  na época  em que alguns clubes  pensavam em exigir o pagamento de royalties pelo uso de seus  escudinhos.
Para os menos comodistas ,  entretanto, montar seus próprios  times  também é uma  grande curtição.  Assim , o popular escritor Fernando Sabino ainda se lembra das memoráveis  broncas que levava  da mãe, quando ela  descobria que os botões de seu casaco de frio haviam sido  transformados em um   arisco ponta ou num  habilidoso meio-campista.  “Raspava-os no calçamento e eles se  transformavam em craques de verdade”, lembra Sabino, com certa nostalgia.  “Valia  a pena   ser tão  severamente punido”.  O craque de vôlei Bernard, do Bradesco, não  enfrentou o mesmo problema: “Usava tampas  se relógios antigos, que conseguia com os relojoeiros do bairro”.  Osmar  Prado,  37 anos na época  (hoje também sessentão), conta que fez um time inteiro com casca de coco.  “Minha  prima gostou  tanto que pegou todos  eles e  colocou num vestido.”
O único medo desta velha geração de botonistas é que os  videojogos, os brinquedos computadorizados e os  bonecos da turma do implacável He-Man consigam destruir o encanto e a  magia que o jogo de botão costuma  despertar nas crianças de hoje.  “Torço  para a garotada não deixar  morrer este jogo tão interessante”,  reza o ator  Barrinhos, o popular Araken, 41 anos, da  Rede Globo.  Por  enquanto, Barrinhos pode ficar sossegado.  Pelo menos se depender de  Juninho Bill e Luciano Nascimento, integrantes do grupo musical  infantil Trem da Alegria, ambos  com 13 anos, o futebol de mesa não corre  nenhum risco.  Nem mesmo nas viagens eles largam seus times.  Quando  a demora dos vôos é muito grande, eles  improvisam um campo no chão do aeroporto, sob olhares atravessados de passageiros e aeroviários.
Loucuras e manias, aliás, não faltam nesse universo.  O baiano  Sólon Rocha montou uma equipe chamada Império Serrano.  Deu  aos botões nomes de atrizes e modelos famosas, como Monique Evans, Xuxa, Márcia Porto e Maitê Proença.  O goleiro  foi batizado  de Wilza Carla.  O cantor  e compositor Chico Buarque  de Holanda encontrou uma fórmula  mais simples para chamar seus   craques:  Camarada 1, Camarada 2, Camarada 3 e assim por diante.   O locutor esportivo , empresário e treinador Luciano do Valle já  revelava dotes de narrador durante suas próprias partidas.  No rol  das invenções, o ator Osmar Prado, ele outra vez, colocou feltro dentro dos gols.  Assim, mesmo que  seja  chutada com força, a bolinha  pára dentro do gol.   E ninguém, graças a  isso, fica com dúvida se  ela entrou ou não.  “Então, é só   correr para a torcida e comemorar o golaço”, brinca.
MASSAGEM   E  PRELEÇÃO – Há  outros  truques: antes de cada partida, o mineiro  Benjamin passa   cerca de meia hora  encerando seus jogadores.  “Se  um dia eu ganhar na   Loto,  contrato um massagista para eles”, promete.    Já o  paranaense Agacir José não   coloca  seus botões   no campo antes  de  demorada   preleção.  “É preciso conversar com eles, pedindo para que não travem a bola  na hora de um chute”, justifica Agacir.  Mas nenhum a dessas loucuras é comparável  à do ex-diretor do Coritiba, Luís  Afonso Camargo.  Ele dava até  “bichos”  para seus botões em caso de vitória.  Colocava-os no bolso e levava   ao cinema. 
Fim.

Como podemos concluir após a leitura da matéria, desde o ano de 1987, data  da  grande reportagem de capa  da revista  PLACAR,  o futebol de botão de mesa brasileiro, continua enfrentando  nos dias atuais, praticamente, os mesmos  problemas   daquela   época:
DIVERSIDADE DE REGRAS - FALTA  DE  UM  REGULAMENTO  UNIFICADO   ( FATORES DECISIVOS   NA  VISÃO   DA   GRANDE  IMPRENSA   PARA  SUA  POUCA  DIVULGAÇÃO)     E   CONCORRÊNCIA    DOS   JOGOS   ELETRÔNICOS    E  BRINQUEDOS  COMPUTADORIZADOS.
Matéria  reproduzida  pelo botonista  Enio  Seibert,  participante da reportagem  nacional em Porto Alegre – Rio Grande do Sul .    Email:   enioseibert@hotmail.com
Principal   mentor  e  coordenador  da  Regra  Unificada  de  Futebol  de  Mesa   e  da  constituição  jurídica  da  União  Brasileira  de  Futebol  de  Mesa.

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