A VITÓRIA DOS BOTÕES-
A VITÓRIA DOS BOTÕES
Torci para o Santos, quinta-feira, não me envergonho de confessar. Ao olhar aquelas camisas brancas, não consegui ficar indiferente diante do televisor. Lembrei-me do meu velho time de botão, que era todo branco, também. E se chamava Santos. E tinha Pelé, Zito, Pepe, Oberdan.
Ao ver os meninos de Formiga, enfrentando a experiência do São Paulo, reencontrei-me com
eles - os botões e os jogadores de carne e osso . Não eram Flávio, Zé Carlos, Nilton Batata, Pita; eram outros que eu via, os que tinham dado os nomes aos meus botões. Era o passado que havia voltado ao simples toque de um botão.
Sofri com os dois gols que o São Paulo fez. Xinguei Flávio por ter saltado tão desajeitadamente naquele chute do Zé Sérgio. às vezes, não entendia porque, ao procurar Pelé, encontrava apenas Pita com a camisa 10. Temi que a esperteza de Minelli estragasse a festa dos meus botões e fizesse desaparecer o instante de nostalgia.
Na prorrogação, apertei a ficha com mais cuidado. Era necessário prender a saída de jogo deles, impedir que Chicão tomasse conta do meio de campo, marcar o Neca, principalmente nas bolas altas. E nada de afobação. Bastava o empate. Convinha não arriscar, mas era preciso não dar a idéia de que estivesse com medo do São Paulo. O troféu do título estava ali, ao lado do campo, e era muito bonito.
Estávamos surpreendentemente calmos,
, eu e os meus botões. A gente haveria de aguentar. O São Paulo perdia as forças. Eu não via maneira de fazer o Nilton Batata ir à linha de fundo e cruzar, mas o Pelé, não, o Rubem Feijão estava infernal. Passaram-se os primeiros quinze minutos de prorrogação. E nós, firmes.
Mais quinze minutos e seríamos campeões. O São Paulo estava cada vez mais morto. Que Minelli, que nada ! A bolinha corria pela mesa que era uma maravilha. Pra lá, prá cá, pra lá, pra cá. E, de repente, éramos campeões de novo., todos juntos, Gilmar-Flávio, Zito-Zé Carlos, Pelé-Rubem Feijão, o passado e o presente, os botóes e os de carne e osso.
E, então, choramos e erguemos o troféu, aproveitando as últimas imagens do vídeo, rápidos, antes que os botões tivessem de voltar para a caixinha deles e a realidade espantasse o meu sonho. Qualquer dia, a gente abrirá a caixa e haverá outro jogo, outro sonho e mais um título. Nós existimos outra vez.
Matéria publicada no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, pelo jornalista e radialista Milton Ferreti Jung da Rádio Guaíba.
Reproduzida pelo colaborador Enio Seibert - enioseibert@hotmail.com
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