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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ARQUIVO HISTÓRICO DO FUTEBOL DE MESA - 2o TEMPO

A METAMORFOSE
Date: Sun, 7 Aug 2011 23:52:58 -0300

Jogou a noite toda !   Não parou para nada, estava infernal.  Acertava tudo.  Chegou em casa com as  pernas dormentes.  Caiu na mesa como estava e sonhou com a noitada, sem parar.
De manhã, não sabia precisar a hora,  tentou se movimentar e não conseguiu.  Achou que estava sonhando.  Riu para  consigo mesmo e tentou de novo.  Nada !   Quem sabe virar de bordo, pensou, mas  estava completamente imóvel.  Imóvel e  duro.  Não conseguia mover um músculo.  Nunca tinha se sentido assim.  Começou a se assustar.  Tentou chamar alguém, em vão.  Não conseguia sequer  se olhar.  Assustou-se.  O que estaria  se passando ?  Não sentia dor alguma, nem  mal estar, apenas estava parado.  Nem  pernas nem braços.  Nada.   Mas estava  vivo !  Sentia as próprias palpitações.  Achava que suava.  Era impressão.
De repente alguém entrou no quarto, mas  como estava um pouco escuro, não conseguiu distinguir feições.  Tentou  falar, inútil.  Conformado, esperou os  acontecimentos.  Subitamente foi levantado de onde  estava e se sentiu muito leve.  Nenhuma vontade de reagir.
Foi colocado então em uma superfície lisa e rígida, sua conhecida.  Extensa,  muito extensa !
Meu Deus !  Aconteceu.  Será possível ?  Ele era um botão..  Que loucura !  Uma vez tinha lido sobre alguém que também  se transformara em  alguma  coisa  durante a noite mas não se lembrava direito.
Inediatamente se deu conta de tudo.  Era plano e liso em cima.  Sentiu o  deslizar da palheta, era mais que um carinho.  Ela estava quase chegando na sua beirada.  Ficou preparado.  De  repente partiu como um raio e bateu na borda da mesa, com força.  Foi um  delírio.
Não queria acordar, estava bom assim, como num passe de mágica não tinha  mais compromisso algum na vida a não ser acertar na bolinha.  Ser titular.  Seria  lustrado e guardado com carinho.
Ah !  O frescor da parafina, que prazer. As vezes ficava de pernas para o ar,  mas logo voltava a posição normal.  Passava horas quieto dentro da caixa, esperando  outra oportunidade.
Angústias, desemprego, inflação, obrigações com a família, tudo tinha  ficado para trás.  Nem lembrava mais o  próprio nome.  Parentes, o que eram  parentes ?
Tinha companheiros, iguais ou  parecidos, também silenciosos.  As vezes passavam por ele a mil e se esborrachavam  ali adiante, mas como ele,  pareciam indestrutíveis.  Como ele, eram  bem tratados e como ele, não se comunicavam entre si, estavam sempre quietos.  Estavam  " lá com seus botões ".
A felicidade eterna.  Nada de mal lhe  poderia  mais acontecer, pensou.
Mas o que seria aquilo ?  Vem vindo alguém com uma furadeira...

Nota: Para aqueles botonistas que não sabem, a furadeira acoplada numa broquinha  de aproximadamente  2 mm. servia para furar  o centro dos botões para possibilitar a entrada de ar na sua  base escavada e propiciar melhor deslizamento uniforme na mesa de jogo.  A maioria dos botões antigos de galalite produzidos pela fábrica Scharlau em Porto Alegre - RS , não vinham furados necessitando desta operação, posteriormente.

Transcrição de crônica de Clóvis Angeli - médico  traumatologista. Sócio fundador da Associação de Futebol de Mesa de Taquara - RS.  Texto publicado  na extinta Revista Futebol de Botão, edição no. 5,  Editora Marco  Aurélio de São Paulo - SP.

Matéria remetida pelo colaborador  Enio Seibert  -  enioseibert@hotmail.com

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