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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ARQUIVO HISTÓRICO DO FUTEBOL DE MESA

A PURIFICAÇÃO


Por definição  encontramos no dicionário que o significado de " catarse " é limpeza, depuração, purificação.  Que outras coisas fazem aqueles que se dedicam a uma distração, a um  divertimento com extremo gosto e apuro ?   Que outra coisa fazem aqueles  que esquecem tudo o mais no momento de puro êxtase quando realizam o que  mais gostam por  simples vontade, inexplicável impulso inconsciente de bom.
O brilho dos botões, o tamanho e a  planura da mesa verde, a iluminação, o apetite, o prazer.  Os botões tem vida, vida mesmo, com coração, pulmão e fezes, a gente conversa com eles, um papo silencioso, estranho mas  verdadeiro.  Os nossos botões. A gente sabe...
Botão é jogo de criança.  Isso dizem uns.  Com essa idade jogando botão, ora veja...  Apregoam outros.  E a gente quieto.  Mal sabem eles que estão  com a razão.  Sim, estão com a razão.  Mas não toda.
A medida que a noite de quinta se  aproxima, a nossa idade diminui, a  minha pelo menos, rapidamente, para alcançar a dos outros.  Mas em  contra partida, a importância e a  seriedade do jogo aumenta, e vai deixando de ser  jogo de criança, também rapidamente.  A idade em que se dá o encontro dessas duas correntes, que se deslocam em sentido contrário, é indefinida, porém, certamente não é infantil.  É nesse  encontro então que acontece a  " pororoca orgásmica " ...
Sim, a " pororoca orgásmica ", momento único de prazer do botonista.  A alegria do gol e da vitória, do chute na trave, da cobertura bem feita, ou a  surpresa negativa do gol contra, da lateral cedida e da falta.  Ah, e do pênalti.  Esquecemos do pênalti.  Hum..., meio sem graça o  pênalti.
E assim a noite passa, rapidamente.  Sobram lembranças dela que aos poucos se  desvanecem na semana de  trabalho.
Para os de  " má noite ", o travesseiro duro aos poucos amolece e os malditos botões passam a ser olhados, novamente  com algum sentimento  positivo.  Para os que brilharam, o pensamento que insiste na lembrança é o dos adorados  heróis fazendo seus  gols nos devaneios que precedem o  sono.
Mas disto tudo sempre sobra algum lucro, tanto para uns como para outros.  Pouco a pouco modelamos os nossos impulsos, numa espécie de praxiterapia, aprendendo a aceitar a derrota, as vezes cruel e injusta, quase sempre de indisfarçável ou melhor dizendo, de disfarçada solidariedade e falsa compreensão.  O aceitar a derrota, o sofrer calado, ou com   explicações que nada adiantam, a sensação terrível de que nada mais de bom existe na vida, por incrível que pareça  é salutar, pois que inconsequente.  Esta conformidade forçada, sutilmente nos prepara para a aceitação também de  inevitáveis derrotas na vida, estas sim, por vezes consequentes e atrozes.                Nos ensina que por mais  próximo que pareça o fim do mundo, sempre haverá outra noite de quinta, outra manhã de sol, outro domingo no parque . 

Transcrição de crônica de Clóvis Angeli - médico traumatologista.  Sócio fundador da  Associação de Futebol de Mesa de  Taquara - RS.  Publicada na extinta Revista Futebol de Botão - edição no. 5.
 Matéria  remetida pelo colaborador  Enio Seibert - enioseibert@hotmail.com

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