CHICO BUARQUE - OS BOTÕES E OS AMIGOS
Chico Buarque relata em suas crônicas romanas durante o exílio na Itália, no final da década de 60 e início dos anos 70 que durante a sua adolescência em São Paulo, costumava assistir a quase todos os grandes jogos de futebol realizados no Pacaembu, devido a proximidade da casa da família com o Estádio e a grande paixão que passava a nutrir por aquele esporte.
Um dos maiores ídolos de todos os tempos conheceu naquele período e chamava-se Pagão, centro-avante titular e que chegara ao Santos Futebol Clube, antes de Pelé, e que formaria nos anos seguintes uma das maiores duplas de atacantes do futebol brasileiro.
A admiração de Chico Buarque pelo estilo de jogo e técnica aprimorada de Pagão, no comando do ataque santista era tão profunda que Chico quando fundou seu time de futebol com os amigos para jogarem no seu sítio no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, atuava sempre com a camisa 9 do Politheama e assinava a súmula do jogo com o codinome “Pagão “, do mesmo modo como gostava de ser chamado pelos companheiros de equipe.
Numa certa ocasião, a equipe do Politheama excursionou a Santos para uma apresentação beneficente de futebol quando pode concretizar um dos seus grandes sonhos. Conhecer e conversar demoradamente com o seu ídolo “ Pagão “, e realizar uma troca de camisetas de nºs. 9, entre as duas equipes, guardando cuidadosamente, na maleta, a camiseta do companheiro de tabelinhas e jogadas de cinema de Pelé, no Santos F.C.
No time do Politheama de futebol de botão, Pagão será certamente o botão branco de galalite, titular da camisa no. 9 , pela eternidade, formando no ataque do seu super esquadrão, com outro ídolo de sua adolescência, o ponteiro camisa 11 Canhoteiro, que costuma dizer, “ só Chico Buarque viu jogar “. Canhoteiro, também deve ser outro botão eternizado como titular do Politheama porque o ponteiro era uma versão canhota do grande Mané Garrincha do Botafogo do Rio de Janeiro, só não se consagrando na Seleção Brasileira por ser contemporâneo de Pepe e Zagalo, os dois ponteiros bi-campeões mundiais de futebol.
Além das partidas de futebol de campo e futebol society, realizadas com outros artistas, músicos e companheiros do Politheama nos campos do sítio, Chico Buarque também curtia realizar confrontos de futebol de botão com os parceiros amigos Vinicius de Morais, Chico Anysio, Toquinho, Osmar Prado ( do teatro e novelas da Globo ), e os companheiros inseparáveis do Grupo MPB 4, em especial, todos fanáticos por um bom jogo de futebol de botão.
Osmar Prado contou-nos em visita realizada no departamento de futebol de botão de mesa do Internacional, no Ginásio Gigantinho, que, na falta ou extravio de bolinhas esféricas de feltro para competição na hora dos jogos,os próprios botonistas, a partir de retalhos de camadas de feltros, devidamente costuradas à mão, improvisavam e confeccionavam novas bolinhas, artesanalmente, para o bom andamento dos jogos e os campeonatos não sofrerem solução de continuidade.
Não ficavam muito perfeitas, como as bolas oficiais industrializadas, mas os torneios podiam continuar dia e noite.
Uma outra história, contada pelo próprio Chico Buarque. Jogavam um campeonato de futebol de botão Chico Anysio, Vinicius de Morais e Chico. Como sabem todos os botonistas, o Politheama tem um hino composto pelo seu presidente e acionista majoritário ( Chico Buarque ) que costuma cantá-lo ou, ao menos, assobiar sua melodia, durante seus jogos, cuja musicalidade contagiante transfere-se para todo o ambiente de competição, penetrando nos ouvidos do árbitro Vinicius de Morais que também começa a assobiá-la ao ritmo do hino.
Chico Anysio que, além de jogador e técnico da sua equipe, também costuma narrar os jogos, suspende repentinamente a narração vibrante que vinha fazendo para reclamar ao adversário e à mesa de controle da Liga, a falta de isenção do juiz da partida, Vinicius de Morais e a sua escancarada torcida pela equipe adversária, pois assobiava junto com o técnico Chico Buarque o hino do Politheama.
Matéria elaborada com base em diversos depoimentos extraídos e postados na Internet, bem como em textos publicados na imprensa brasileira.
Chico Buarque de Holanda e os botões
"Tostão me perguntou meses atrás, aqui mesmo em Paris, se o futebol do Denilson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do São Paulo que só eu vi jogar, na década de 50). Vinda de quem vinha, aquela pergunta me paralisou. Fiquei postado na praça, sem raciocínio, olhando para o Tostão. Se bem que, quando topamos um craque de bola no meio da rua, vestido à paisana, andando como a gente anda, falando como a gente fala, nós, amadores, sempre nos atrapalhamos. Viramos idiotas.
Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão.
Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio oval, um botão de galalite, vermelho. Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, como nunca haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que só eu vi jogar.
Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de uniforme, uniformes diferentes uns dos outros, num vestiário com o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita atenção. Dispensam alongamentos, entram em campo e já começam a jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola, não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles não há quem se atreva a jogar.
Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tostão não fazia idéia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça. "Ele te lembra o Canhoteiro?", perguntava o Tostão, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no Stade de France, sem Denilson. Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho, de quem tudo o que se diz não basta, e há um oco. Sim, a ausência do Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que só eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e já me pergunto se, barrando o Denilson, Zagallo não pretende barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente à minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do Denilson, e não direi o que se passou naquele instante com a fisionomia dele. Não direi de quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra. É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memórias. Seu drible na corrida, calculo que possa chegar a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do bico do pé do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez com um assobio - ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito. Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa de relógio, acho. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do pé do beque."
Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão.
Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio oval, um botão de galalite, vermelho. Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, como nunca haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que só eu vi jogar.
Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de uniforme, uniformes diferentes uns dos outros, num vestiário com o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita atenção. Dispensam alongamentos, entram em campo e já começam a jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola, não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles não há quem se atreva a jogar.
Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tostão não fazia idéia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça. "Ele te lembra o Canhoteiro?", perguntava o Tostão, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no Stade de France, sem Denilson. Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho, de quem tudo o que se diz não basta, e há um oco. Sim, a ausência do Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que só eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e já me pergunto se, barrando o Denilson, Zagallo não pretende barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente à minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do Denilson, e não direi o que se passou naquele instante com a fisionomia dele. Não direi de quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra. É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memórias. Seu drible na corrida, calculo que possa chegar a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do bico do pé do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez com um assobio - ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito. Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa de relógio, acho. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do pé do beque."
Chico Buarque de Hollanda
Outra reportagem de Chico publicada no jornal O Pasquim
ENTREVISTA DE CHICO BUARQUE AO PASQUIM
Jaguar - Você lançou na Itália o futebol de botão, ou já existia lá ?
Chico Buarque - Eu tentei, mas não consegui, porque eles têm um futebol de botão, mas é muito diferente, é muito chato. Eu tentei impor o nosso e eles queriam impor o deles, aí não deu pé.
Fortuna - Como é que é o futebol de botão lá ? É futebol de fecho éclair ?
Chico Buarque - Não, é com botão mesmo, mas é com peteleco, as bolas são quadradas, são dadinhos. Eu acho o futebol de botão uma coisa muito bacana e a melhor maneira de se jogar é fazer a coisa mais parecida com o futebol de verdade, isso é uma discussão velha e tal, mas lá é a coisa mais diferente. O pessoal dizia: não, mas assim é mais técnico. No nosso futebol os jogadores têm nome, camisa, a bola é redonda, no futebol que a gente joga no Rio.
Na Bahia já é diferente, me mandaram uma vez o regulamento deles, é um outro jogo.
Fortuna - Você pode explicar como é o futebol de botão baiano ?
Chico Buarque - Eles foram de uma gentileza muito grande comigo, me convidaram para ir à federação deles e me deram um jogo de times, mas eu não consegui me adaptar. É completamente diferente. Eu acho que eles têm a unha dura porque são uns botões muito grandes e em vez de palheta eles usam a unha. É um negócio que só joga um de cada vez. Eles explicaram que isso é mais técnico, que é muito mais fácil do que ficar controlando a bola, mas, sei lá, eu não gostei. Agora eu vou estudar esse negócio de novo porque é uma matéria muito séria.
Sérgio - No campeonato de botão que vocês faziam o negócio chegou a um aprimoramento ?
Chico Buarque - Eu faço questão de dizer que eu fui campeão.
Sérgio - Quem participava mais ?
Chico Buarque - Três do MPB 4 , Hugo Carvana, Cláudio Marzo, Eli Halfun, um primo meu, um vizinho do Aquiles do MPB 4 , o cunhado do Magro do MPB 4, eram doze pessoas., e eu fui campeão.
Sérgio - Parabéns. Agora eu sei que vocês chegaram a um negócio muito sofisticado do ponto de vista de regras e estatutos, tinha lei de passe e uma moeda especial. Como é que era ?
Chico Buarque - Isso acabou não sendo desenvolvido porque eu fiz uma excursão com o meu clube, o Politheama, e não deu tempo de organizar toda a coisa. Talvez agora dê, vamos ver. Aliás, por uma questão de honestidade, eu não fui campeão do campeonato, eu fui campeão do torneio início. O primeiro campeonato nunca chegou a ser realizado. Em breve vai ser e nós daremos notícia para o PASQUIM.
Matéria remetida pelo colaborador Enio Seibert. Transcrição parcial de reportagem do jornal O PASQUIM postada na Internet. Email: enioseibert@hotmail.com




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