REPORTAGEM HISTÓRICA DE 1944
REPORTAGEM HISTÓRICA DA REVISTA DO GLOBO
FUTEBOL DE BOTÃO - Um esporte que apaixona os gurís, que os prende em casa e que preocupa as mães pelo "misterioso" desaparecimento dos botões das roupas...
Os dois garotos estavam parados defronte ao Cinema Central e quando passamos ouvimos um fragmento da conversação:
Ontem o Huracán derrotou o River Plate por 3 x 0 , numa partida apertadíssima... Nós que, por força da profissão, estamos sempre mais ou menos ao par do movimento esportivo nacional e dos paises vizinhos, não sabíamos de um match entre o Huracan e o campeão buenairense de 1942 e, por isso, ficamos levemente atucanados com a ignorância do fato. Porém, podia ter acontecido.
No dia seguinte, agora na Praça da Alfândega, outros dois rapazolas comentaram à nossa passagem:
Nem queiras saber. Ontem à noite, o São Cristóvão derrotou o Vasco com uma contagem que não deixou dúvidas: 6 x 0...
Era demais, o São Cristóvão estava no Ceará e o Vasco no Rio de malas prontas para visitar São Paulo e, portanto, não poderiam ter jogado de maneira alguma na noite anterior. Não havia dúvida que os gurís queriam nos passar um trote. Fomos logo pedindo esclarecimentos e eles calmamente explicaram:
Nós estávamos fiscutindo jogos do campeonato de futebol de botão.
Futebol de botão?
Foi assim que travamos conhecimento com um esporte que congrega somente em Porto Alegre muitos milhares de rapazes de todas as idades e que até clubes " especializados " possue, mesmo sem atender as múltiplas exigências da oficialização. No Rio de Janeiro é chamado de " Futebol Celotex " e obedece a determinadas regras que aqui não são acatadas desde que os " nossos regulamentos " , segundo afirmam os jogadores, dão aos lances do referido esporte muito maior emoção. E aqui, chama-se simplesmente: Futebol de Botão.
A curiosidade levou-nos a visitar um dos clubes especializados: o Clube Lima e Silva, sediado na antiga rua da Olaria, com um total de 20 sócios que pagam dois cruzeiros por mes cada um. Na nossa visita tivemos a grande oportunidade de assistir, nada mais nada menos,, que a um GRENAL, e o tricolor da Baixada (antigo estádio do Grêmio no bairro Moinhos de Vento), apesar de ostentar o título de tri-campeão do clube, caiu derrotado frente aos colorados pela contagem de 3 x 1, após um prélio renhidíssimo que durou mais de duas horas, mercê de sucessivas prorrogações resultantes de outros tantos empates.
. E fomos então informados que iriam decidir o campeonato, Cruzeiro e Internacional, quem sabe um vatícínio para a próxima temporada de futebol de verdade.
O jogo é disputado por onze botões de um lado e outros tantos de outro, impulsionados por uma palheta manejada com maior ou menor habilidade pelo " dono " do team. Os botões empurram a bola ( um botão pequeno ) para dentro dos goals que possuem rêdes e são defendidos por botões de respeitável tamanho.
Tudo isso em cima de uma mesa com um metro e noventa de comprimento por um metro e vinte de largura. E há fouls (faltas), hands (mãos), off-side
s (impedimentos), etc. O tempo é de 22 minutos no total, dez de cada lado, acrescentando-se dois minutos como " quebra " pelo tempo que a bola cai fora do campo de jogo.
Os teams possuem as denominações dos mais destacados clubes do continente, além dos nomes daqueles que constituem a série da primeira divisão de Porto Alegre-Rio Grande do Sul.
Nota: Chamam a atençao nesta matéria histórica, datada de 05 de fevreiro de 1944, talvez a segunda reportagem mais antiga do futebol de botão de mesa brasileiro, publicado na Revista do Globo de Porto Alegre - Rio Grande do Sul, dois aspectos importantes. Primeiro: os garotos gauchos, liderados por Lenine Macedo de Souza (fundador da Federação Riograndense de Futebol de Mesa) já tinham conhecimento da Regra Celotex de Geraldo Décourt no Rio de Janeiro, trataram de estudá-la e promover mudanças para torná-la mais dinâmica e emocionante, pois a Regra Celotex pioneira era jogada em somente um lance para cada técnico/jogador. Segundo: Os goleiros das equipes eram os botões maiores e mais altos de cada " team ", formação que predominou até início da década de 50.
Matéria redigida pelo jornalista Professor Amaro Júnior, redator esportivo do jornal Folha da Tarde e Revista do Globo.
Transcrição do colaborador Enio Seibert - enioseibert@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário